Europeu de kickboxing: Uliana, uma ucraniana com pais russos que só quer inspirar o seu país
Atleta explicou a Record como tem vivido o conflito armado na sua terra natal
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O Campeonato da Europa de kickboxing da WAKO, disputado em Antalya, até pode já ter terminado, mas são várias as histórias da competição que vão perdurar no tempo. A de Uliana Mashkova e do marido, Pavlo Zamyatin, tem tudo para ser uma delas.
O desporto nunca foi uma atividade estanque na sociedade e sempre caminhou de braço dado com áreas como a política e a cultura. Sendo certo que o Mundial de futebol do Qatar tem sido a face mais visível desta realidade nos últimos dias, a verdade é há outros exemplos do impacto que o desporto pode ter em relação a questões sociais. Numa altura em que o conflito entre a Ucrânia e a Rússia continua ativo, Uliana Mashkova, atleta ucraniana de 32 anos, quer 'usar' o Europeu de kickboxing em que esteve envolvida na semana passada para inpirar o seu país. Quem o garante é a própria a Record.
"Este tipo de competições são a única oportunidade que temos para não pensar apenas na guerra, em casa estamos sempre a ouvir alarmes ou mísseis. Aqui pudemos relaxar um bocadinho mais, ganhar motivação para os próximos tempos e inspirar as pessoas mais novas", começa por explicar Uliana, que, juntamente com Olesia Bulhakova, conquistou a medalha de ouro na competição de equipas de Formas Musiciais. O significado e a importância desta competição para Uliana são ainda maiores do que para os seus colegas porque a atleta esteve em Antalya na companhia do marido Pavlo Zamyatin, um dos treinadores da comitiva ucraniana e também ele medalhado enquanto competidor (bronze em Point Fighting -79 kg).
"Vivemos em Kyiv e temos o nosso ginásio, onde damos muitas aulas de kickboxing principalmente a crianças e jovens. Quando a guerra começou houve muita gente a mudar-se para outras cidades e outros países, mas agora a situação está um pouco mais calma. O primo do meu marido é militar e teve de ir combater para Donetsk durante cinco meses, mas entretanto voltou a casa para descansar um pouco e regressa em dezembro", continua Uliana, para quem, de resto, esta guerra teve muito mais implicações do que 'apenas' ver o seu país sofrer: "A minha família é russa e está toda na Rússia, eu nasci lá e só depois é que fui para a Ucrânia. Eles estão contra tudo isto, ligam-me todos os dias. Há muitas famílias que têm elementos da Ucrânia e na Rússia e que, com a guerra, se chatearam. Felizmente não foi o caso da minha, estamos todos do mesmo lado".
A delicadeza de movimentos que Uliana apresenta quando está no tatami contrasta com a dureza dos momentos que o povo ucraniano viveu (e continua a viver), num cenário quase inimaginável para quem acompanha o conflito ao longe. "Quando a guerra começou, no dia 24 de fevereiro, acordámos às 5 horas com mísseis a passar por cima de nossa casa. Percebemos que estava a começar uma guerra e as pessoas começaram a deslocar-se em massa para os postos de combustível para irem embora. Nós decidimos ficar dois dias e depois fomos para a casa dos pais do Pavlo, que fica nas imediações de Kiyv. Todos os dias, durante um mês, tivemos de nos abrigar num bunker, juntamente com três adultos e quatro crianças. Havia sempre helicópteros a voar mesmo por cima da nossa casa e tanques de guerra a passar com frequência", recorda a atleta, que teve de fazer várias adaptações em termos profissionais aquando da fase mais crítica da guera: "Durante este período tivemos treinos online, até porque já o tínhamos feito na altura da Covid-19. Nas duas primeiras semanas não treinámos porque não era a nossa preocupação, mas depois tentámos ir voltando à normalidade. Havia sempre a preocupação de perceber como é que os nossos alunos estavam e se podiam participar nos treinos, que nessa altura passaram a ser grátis. Na verdade este era um momento mais importante a nível psicológico do que físico porque desabafávamos muito uns com os outros".
Uma coisa parece ser evidente: tendo a Ucrânia sido a 2ª classificada no ranking de medalhas na vertente 'Sénior' do Campeonato da Europa, com 27 medalhas no total (11 ouros, 3 pratas e 13 bronzes), o povo ucraniano está, com toda a certeza, orgulhoso.