Hugo Passos prepara adeus: «Tenho sofrido muito e já não dá mais»

Lutador vai disputar em Samsun, na Turquia, os seus últimos Jogos Surdolímpicos

• Foto: Vítor Chi

"Já estou muito cansado. Tenho sofrido bastante, tenho sofrido muitas lesões e não dá mais." É desta forma que Hugo Passos, aos 39 anos, nos anuncia que os Jogos Surdolímpicos de Samsun, que decorrem entre hoje e do dia 30, serão os últimos da sua carreira. Para trás fica uma vida ligada às lutas (em especial à luta greco-romana), uma paixão que nem mesmo a surdez - que o afeta desde cedo - travou.

Aliás, mesmo com a limitação auditiva, fez história em 2004, quando fez parte da comitiva portuguesa presente nos Jogos Olímpicos de Atenas. Um marco que o lutador, natural de Lisboa, guardará para sempre como um dos pontos altos da sua carreira. "Na altura não esperava estar nessa situação, em pé de igualdade com os ouvintes, com os grandes atletas da modalidade. Não estava habituado a esse nível de competição, a um nível tão elevado. Foi de facto muito especial", recorda-nos.

Mas se a nível internacional a sua carreira se resume maioritariamente a duelos com atletas também surdos - e com cinco medalhas de ouro surdolímpicas no currículo (em 2001, 2005, 2009 e 2013) -, por cá é ‘obrigado’ a competir de igual para igual com os ouvintes e, mesmo assim, sempre a... ganhar. "Em 20 anos nunca perdi a nível nacional", diz-nos, de sorriso no rosto e cheio de orgulho, Hugo Passos, que para lá da atividade de lutador é treinador no Casa Pia. Para o futuro, tem um desejo claro. "Gostava de ser convidado a ser um dos selecionadores da área, um treinador de referência. Gostava e conto com isso."

Embaixador com duplo orgulho

Ao lado de Patrícia Mamona e Nelson Évora, Hugo Passos é um dos embaixadores da candidatura de Lisboa a capital Europeia do Desporto de 2021, algo que deixa o veterano lutador orgulhoso.

"Fiquei muito satisfeito e honrado, pois não esperava esse convite. Não estava à espera… É muito importante. Por que mostrar sempre os ouvintes e não mostrar os outros, aqueles que por algum motivo não têm as capacidades a 100%? Por que não mostrar os outros, que também têm as mesmas capacidades a nível de desporto?", questiona, deixando depois algumas razões para suportar esta aposta da Câmara Municipal de Lisboa.

"É uma forma de mostrar que há igualdade entre os atletas. A nível do desporto estou em pé de igualdade com os ouvintes. O problema é o facto de não ouvir? Com treino, esforço e empenho também chego lá. Não é o facto de eu ser surdo que me impede de conseguir ter essas capacidades. Sinto-me duplamente orgulhoso", confessa.

7,8 quilos e... mais uns pozinhos

Com a carreira a chegar ao final, desafiámos Hugo Passos a fazer uma contabilidade do número de medalhas que conseguiu conquistar ao longo dos anos em que esteve ativo. Um número que surge sob a forma de... peso. "O meu pai diz que são 7,8 quilos!" Uma contabilidade na qual não constam as mais especiais, aquelas que foram conseguidas nos Surdolímpicos, para lá da medalha de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, atribuída pelo Presidente da República, em 2015. E qual a medalha que maior gozo deu conquistar? As que foram alcançadas nos Jogos Surdolímpicos são todas especiais, garante, mas a primeira nunca se esquece. Foi na Hungria, no Mundial absoluto de juniores, onde o português apenas perdeu no combate final. "Foi um marco para mim. Não esperava ganhar algo e acabei por ficar em 2º. Chorei eu, o meu pai, o meu treinador… Foi um momento que me marcou."

Por Fábio Lima
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