João Havelange: Formou um império maior do que a ONU

Com ele, a FIFA atingiu 209 filiados e passou a gerar milhões. Acabou sob suspeita de corrupção

• Foto: Reuters

Uma pneumonia vitimou ontem aos 100 anos João Havelange, antigo presidente da FIFA, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, onde estava internado desde julho. Uma das medidas de grandeza utilizadas para perceber o impacto de Havelange no crescimento do futebol e da FIFA em particular é a forma como o brasileiro transformou os 39 membros do organismo à data da posse, em 1974, num gigante à escala planetária, com 209 filiados , maior em número do que a ONU (Organização das Nações Unidas), quando deixou o cargo, em 1998.

O próprio Havelange gostava de fazer referência aos 20 dólares que dizia ter encontrado em caixa por oposição ao património financeiro de 4 mil milhões de dólares que terá deixado a Joseph Blatter, passados 24 anos. A expansão para novos territórios (mais o regresso da China), o alargamento do Mundial de 16 para 32 participantes e a introdução de Mundiais sub-17, sub-20 e Feminino contribuíram decisivamente para tornar a FIFA numa máquina de fazer dinheiro.

Da ribalta ao esquecimento

Apesar de ter construído um império (visitou 186 países), exercendo nos gabinetes uma influência comparável à de Pelé dentro de campo, Havelange nunca foi consensual. Pelo contrário. E com o tempo chegaram os indícios de corrupção, sustentados na proximidade a Horst Dassler, herdeiro da conhecida marca desportiva Adidas e dono de uma empresa de marketing (ISL) que explorava os direitos de transmissão televisiva e publicidade nos Mundiais e nos Jogos Olímpicos. Havelange foi acusado de favorecimento em troca de votos e dinheiro, escândalo que rebentou em 2012, na sequência da divulgação de um relatório (da autoria de Hans-Joachim Eckert, chefe do comité de ética da FIFA). Suspeito de ter recebido 1 milhão de euros em subornos, Havelange renunciou, em 2013, à presidência honorária da FIFA.

Dois anos antes, em 2011, já se tinha afastado do COI, por motivos semelhantes. Os casos foram arquivados e Havelange nunca foi incriminado na Justiça. Mas a sombra da polémica não desapareceu e tanto assim foi que, depois de ter sido fundamental na atribuição dos Jogos Olímpicos ao Rio de Janeiro, o nome de João Havelange foi retirado do estádio agora conhecido por Engenhão.

João Rodrigues: «Não aparece outro em 100 anos»

João Rodrigues era presidente da FPF (1989-1992) quando o nosso país recebeu o Mundial de sub-20, em 1991, e não esquece a importância que João Havelange teve para o futebol português. "Foi um grande amigo de Portugal mas acima de tudo um homem bom e um dirigente de dimensão excecional. Só posso estar agradecido por tudo o que ele fez ao futebol. Nos próximos 100 anos não aparece outro Havelange", disse João Rodrigues a Record, "profundamente afetado e infeliz pelo desaparecimento de uma pessoa inteligentíssima e extraordinária".

O antigo líder da FPF recorda, por exemplo, que "foi graças a Havelange que o português passou a ser uma das línguas oficiais da FIFA" e assinala que "está muito por contar sobre várias histórias em que tentaram manchar o seu nome, mas este não é o momento". No entanto, João Rodrigues, 81 anos, não poupa Joseph Blatter, o braço direito de Havelange, que lhe sucedeu na FIFA: "Teria a obrigação de fazer um ato de contrição. O que ele fez foi vergonhoso e indigno." Rodrigues lembra que Havelange "tudo fez para levar de novo o Mundial ao Brasil e quando isso aconteceu, há dois anos, não houve uma palavra de reconhecimento, um convite para um ato oficial, nada. Ignoraram-no pura e simplesmente. Lamentável".

Luto e bandeiras a meia haste

A morte de João Havelange teve repercussão global, com epicentro no seu país. A CBF, Confederação Brasileira de Futebol, salientou a "importância eterna" do ex-dirigente para o "desporto mundial." Além de ter colocado as bandeiras a meia haste, o organismo decretou sete dias de luto oficial. Na próxima jornada de todos os campeonatos em curso será cumprido um minuto de silêncio. Havelange presidiu à Confederação Brasileira dos Desportos, antecessora da CBF, entre 1956 e 1974.

CURIOSIDADES

Não às armas. Filho de Faustin Havelange, um belga comerciante de armas radicado no Rio de Janeiro, João Havelange recusou dar continuidade ao negócio do pai, apesar de ter sido convidado para isso. Havelange afirmava ter aversão a armas e afirmou nunca ter possuído uma.

Atividade. A par da ligação umbilical ao desporto (praticou futebol, foi nadador e jogador de polo aquático e esteve em dois Jogos Olímpicos), João Havelange formou-se em Direito pela Universidade Federal Fluminense e chegou a ser diretor-executivo da Viação Cometa, uma empresa de transportes rodoviários.

Distinções. Havelange foi condecorado quatro vezes pelo Estado português, nomeadamente em 1961 (Comendador da Ordem do Infante D. Henrique) e em 1991 (Grã-Cruz da Ordem do Mérito). Ainda fora do Brasil, foi agraciado com a medalha da Legião de Honra (França).

Topo. Uma pesquisa realizada pelo Comité Olímpico Internacional, em 1999, considerou João Havelange um dos três maiores ‘Dirigentes do Século’, a par do Barão Pierre de Coubertin (ideólogo dos Jogos Olímpicos da Era Moderna) e de Juan Antonio Samaranch (antigo presidente do COI).

Família. Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, foi casado com a filha de João Havelange, Lúcia. O divórcio do casal afastou-os e Havelange apoiou Blatter na corrida à FIFA.

Por António Magalhães e Vítor Almeida Gonçalves
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