«Não tenho vergonha de ser uma ex-atleta olímpica que hoje trabalha nas obras»

Brasileira Júlia Vasconcelos deixou o taekwondo depois de uma depressão e emigrou para os Estados Unidos

Júlia Vasconcelos, hoje com 27 anos, representou o Brasil em taekwondo nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, mas acabou por abandonar a modalidade, alegando ter sido psicológica e moralmente assediada pelo seu treinador. Hoje vive em New Jersey, nos Estados Unidos, onde é servente nas obras de dia e treinadora de taekwondo à noite. "Estou constantemente cansada, mas não há outra forma. Um dia o corpo acostuma-se", conta a ex-atleta ao site UOL.

Foi no ano passado que Júlia decidiu deixar a família, a namorada e a modalidade que praticava desde os 6 anos. Vendeu o carro, os móveis, desenvencilhou-se do apartamento onde morava, deixou tudo para trás. Para fugir do que há anos a atormentava.

"Eu sempre vi que havia coisas erradas, como o meu ex-treinador ficar com uma percentagem do meu salário. A associação dizia que era para ajudar atletas que tivessem dinheiro para competir, mas eu sabia que não era esse o caso", contou. "O preço do autocarro que nos levava às competições era de 30 reais, mas cobravam-nos 60. A camisola do clube, que era um direto dos atletas, era vendida por ele. Se nos negássemos a dar o dinheiro, éramos punidos, não participávamos nas competições", relata.

"Em 2016, por altura dos Jogos Olímpicos, a minha mãe candidatou-se a vereadora em são José dos Campos e eu não pude apoiá-la. Havia um vereador que apoiava a equipa e nós tínhamos de o apoiar explicitamente. Disseram-me que se não o fizesse que sairia."

Mas a gota de água para Júlia foi o facto de o treinador ter tentado demovê-la da ideia de se submeter a uma cirurgia, em que lhe foram colocados cinco parafusos na mão, mesmo com todos os médicos a recomendarem o procedimento. "Quando voltei ele fazia piadas a dizer que eu precisava de perder peso, que era indisciplinada. Comecei a ficar deprimida. O treino, que era meu melhor momento do dia, deixou de me dar prazer."

A bulimia foi outro problema. Júlia mede 1,75 metros e competia na categoria de -58 kg, o que implicava uma grande flutuação de peso. "Quando faltavam cinco ou seis dias para a competição, ia ao shopping, comia tudo o que tinha vontade e, quando chegava em casa, deitava tudo para fora", conta. "Às vezes, pegava no carro de madrugada e ia ao supermercado, só para ver comida: passava a noite a olhar para as barras de chocolate e para as pizzas."

"Quando viajava para as competições, comprava quilos de chocolates e bolos. Depois da pesagem comia", recorda. "Dias antes da competição eu sobrevivia com mais ou menos umas 600 calorias por dia, comia uma clara de ovo e um bocadinho de frango desfiado".

Banhos, saunas, tudo valia para perder peso abruptamente. "Nos Jogos olímpicos estive 20 horas ingerir qualquer líquido..."

Seguiu-se a depressão e o medo pelo futuro. "Eu sofria porque não estava a gostar de treinar, mas tinha medo e pensava: 'Se não fizer isto, vou fazer o quê? Vou trabalhar em quê?'. Então, um amigo que mora nos Estados Unidos sugeriu-me que passasse algum tempo aqui. Realmente precisava afastar-me. Não tenho vergonha de ser uma ex-atleta olímpica que hoje trabalha nas obras."

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