Natação: «Amadores» portugueses nadam até 12 km por dia
A VIDA de um nadador é das mais difíceis do desporto a nível mundial e Portugal não foge à regra, com os principais praticantes a efectuarem uma quilometragem semelhante à das principais "estrelas" do planeta.
As características próprias da modalidade (esforço de resistência aeróbia, necessidade de uma técnica apurada, sendo a força e a flexibilidade igualmente factores-chave para um bom desempenho) levam a que seja das mais exigentes, obrigando os atletas a passarem uma média de cinco/seis horas diárias no local de treino. A carga semanal é dividida por oito a dez treinos, os quais podem perfazer 75 quilómetros de natação em períodos de maior volume.
Por outro lado, se a prática da modalidade, por si só, já exige grande sacrifício, o facto de a maioria dos nadadores serem, simultaneamente, estudantes, aumenta, ainda mais, o grau de esforço. Por observação (não existem dados estatísticos) podemos afirmar que cem por cento dos nadadores até aos 18 anos são estudantes, não havendo um único profissional. Entre os que estão em idade universitária, 99 por cento são-no de facto enquanto o resto (um por cento) do universo são os que já concluíram o curso ou que já ingressaram no mercado de trabalho, boa parte das vezes ligado à natação, enquanto professores ou treinadores.
Poucas vezes nos lembramos que, por trás dos grandes feitos, existe muito trabalho. Que o diga o vice-campeão europeu dos 200 m bruços, José Couto, que, aos 21 anos, é - com Alexandre Iokochi - o mais importante nome na história da modalidade em Portugal.
José Couto descreve, a Record, um dia típico: "Levanto-me às 6 da manhã, para estar na piscina de Alvalade meia hora depois. O treino dura até às 8.30 e, depois, vou para as aulas na Universidade", onde é estudante do primeiro ano de Educação Física e Desporto. Após o intervalo para o almoço e aulas da tarde, Couto retoma a actividade: "às 17 horas, regresso à piscina, onde fico a treinar, dentro e fora de água, até às 20.30. Chego a casa, habitualmente, às 21.00, ou seja, 15 horas depois de sair".
"Nos períodos de maior volume podemos atingir os 75 quilómetros semanais (ver quadro), dependendo o tipo de treino do período da época", refere Carlos Cruchinho, o técnico (eleito o melhor do ano em 1996 e 97 pela APTN) de José Couto nos últimos oito anos e que tentará conduzir o pupilo a uma final olímpica em Sydney, em Setembro.
15 VOLTAS... À TERRA
Maria Carlos Santos, essa, parece ter ultrapassado os problemas da época transacta - horários inimagináveis para uma atleta internacional e integrada no plano de alta competição impediam-na de treinar mais do que quatro/cinco vezes por dia. "Este ano já tenho horários melhores e, até agora, estou a conciliar bem os treinos com o segundo ano de Geografia", refere a recordista nacional.
Ao nível da frequência de treino, António Vasconcelos Raposo, técnico da atleta, refere que "esta época, a Maria já está a realizar dez sessões semanais, o que equivale a 55/60 km, quando, na época passada apenas chegava aos 30/35". Um dado curioso, que o técnico faz questão de realçar, é o facto de a "Maria já ter nadado 188.400 quilómetros em 12 anos de carreira", o que equivale a cerca de 15 voltas à Terra a nadar...
O treino de Nuno Laurentino não foge à regra, bem como as dificuldades para conciliar estudos e natação. Daí que, neste ano olímpico, o atleta de 24 anos esteja "a prescindir um pouco da Universidade", onde termina cadeiras do terceiro ano e Educação Física, de modo a poder preparar-se "o melhor possível para Sydney". O sexto nadador no Mundial de piscina curta nos 50m costas e 100m estilos, treina "entre as 6.30 e as 8 da manhã e mais três horas de tarde, sendo uma hora de musculação ou exercícios em seco, mais duas horas de água, o que, ao fim do dia, pode totalizar 10 a 12 quilómetros", esclarece Laurentino, que, com José Couto, já está apurado para os Jogos Olímpicos e que participará, entre 16 e 19 de Março, no Mundial de piscina curta.
NUNO ALBUQUERQUE