Xadrez: Controlo «antidoping» entra para a história
UM caso inédito, que deverá entrar para os anais dos arquivos do insólito e da história do desporto Mundial. A penúltima sessão do Campeonato Nacional feminino, que decorreu em Lisboa, recebeu uma visita inesperada dos delegados médicos do Centro de Medicina Desportiva, a mando do Instituto do Desporto (IND), com o objectivo de fazer o controlo “antidoping” a duas xadrezistas, Maria Irene Vieira e Patrícia Lobo, escolhidas por sorteio entre as cerca de três dezenas de concorrentes.
A medida inseriu-se numa visita de rotina, cumprindo um regulamento que foi acatado, a seu tempo, por todas as federações desportivas, incluindo a de xadrez (FPX). Mas, segundo uma testemunha ocular, ninguém estava preparado para tal situação, levando a organização a alugar, de propósito, um quarto do hotel onde decorreu a prova, para se proceder à extracção da urina às jogadoras.
Na realidade, toda a gente ficou surpreendida. Até os próprios médicos confessaram-se admirados com a operação.
Quanto ao ambiente da sala, o tom era crítico, tendo em conta que a modalidade foi tratada como qualquer outra disciplina profissional. Mas, ao mesmo tempo, não faltou a boa disposição, já que, todos os presentes, estavam conscientes que, ali, se escreviam páginas da história: tratou-se do primeiro controlo “antidoping” ao xadrez à escala planetária, pois nem a própria Federação Internacional (FIDE) tem regulamento estabelecido sobre o assunto.
A FPX até se vangloria de ter sido a primeira federação de xadrez a conceber um regulamento ”antidoping”, já que o seu presidente, José Armando Silva, considera que a modalidade não deve ter qualquer estatuto de excepção em relação a outras disciplinas: ”É um regulamento inédito muito bem elaborado do ponto de vista técnico, por um médico especialista, Alberto Fernandes, que também joga xadrez. Na realidade, existem substâncias, como, por exemplo, as anfetaminas, que podem aumentar o rendimento do xadrezista”, explicou o dirigente federativo.
CATARINA LEITE CAMPEÃ
Em termos estritamente competitivos, a jovem Catarina Leite, de apenas 16 anos, foi a grande revelação da prova, conquistando o seu primeiro título (22ª edição), com sete pontos em outros tantos jogos disputados.
Através de uma excelente “performance”, a jovem xadrezista não deu qualquer hipótese às adversárias mais directas – Tânia Saraiva e Sofia Henriques, que terminaram a ponto e meio de distância (5,5).
“Confesso que não estou surpreendida com o meu título, mas satisfeita. A minha força de jogo tem evoluído, fruto dos treinos que tenho recebido pelos técnicos da Federação. Aliás, quero dedicar o título ao meu treinador, António Fróis, que é um dos principais responsáveis pela minha boa preparação. Tenho por objectivo continuar a jogar e evoluir o mais possível, de modo a tornar-me, porque não, uma profissional”, considerou a xadrezista do Ginásio Clube de Odivelas, estudante de um curso de Animação Social.
CLASSIFICAÇÃO
Eis a classificação das dez primeiras no Campeonato Nacional feminino: 1ª, Catarina Leite (GC Odivelas), 7 pontos; 2ªs, Tânia Saraiva (GX Porto) e Sofia Henriques (CAC Pontinha), 5.5; 4ªs, Vera Oliveira (AC Luís de Camões) e Cláudia Sirgado (GC Odivelas) 5; 6ªs, Alda Carvalho (UDC Camarate), Céu Silva (GD Dias Ferreira), Dora Leal (GX Guarda), Margarida Coimbra (AO Palma e Arredores) e Diana Fernandes (CAC Pontinha), 4.5.
Entretanto, António Fróis e Carlos Carneiro foram os portugueses que lograram obter melhores classificações no torneio de semi-rápidas de Ayamonte (Espanha), ao posicionarem-se, ambos com um total de sete pontos, nos quinto e sexto postos, respectivamente, entre 140 participantes. O triunfo pertenceu ao equatoriano Matamoros, o qual totalizou oito pontos.
ALEXANDRE REIS