'Comando' do golfe prova que a idade é um posto

Nelson Cavalheiro não é um golfista qualquer

• Foto: DR Record

O Axis Ponte de Lima Golf não é um campo para meninos. Construído num deslumbrante terreno montanhoso do Minho, implica uma condição física invejável e a provação torna-se maior quando chove ou está muito calor.

É, contudo, um teste formidável num campo desenhado pelos irmãos Silva – Daniel, um dos melhores golfistas portugueses de todos os tempos, e David, um dos melhores treinadores nacionais e ex-presidente da PGA de Portugal.

Os amadores optam frequentemente por jogar de 'buggy', privilégio interdito aos profissionais e quando a PGA de Portugal decidiu levar àquele belo percurso o segundo torneio do PGA Portugal Tour de 2018 e o primeiro Pro-Am do Circuito PT Empresas deste ano, já se sabia que a condição física iria ser primordial.

Poderá ser, por isso, algo contraditório que tenha sido coroado campeão um treinador – e não jogador de alta competição – que cumpre 48 anos neste domingo, 17 de junho, mas é um paradoxo meramente aparente.

Nelson Cavalheiro não é um golfista qualquer. Na altura em que o circuito profissional português era mais familiar, ostentava com orgulho a alcunha de 'Comando' por ter cumprido o serviço militar naquela tropa especial de elite.

Para quem serviu os Comandos no tempo do famoso comandante Jaime Neves, o Axis Ponte de Lima Golf é um desafio aliciante e Nelson Cavalheiro nem pensou duas vezes antes de decidir que andaria a subir e descer colinas com o saco às costas… exatamente como há 20 anos fazia um dos desenhadores do campo, Daniel Silva!

"Há 24 anos que não ia jogar lá e já não me recordava de que o campo era tão difícil a nível físico, mas tenho uma boa preparação física, desde maio que tenho conseguido treinar mais um pouco porque é um mês menos fraco em termos de aulas de golfe, e acho que tudo isso ajudou-me", disse o diretor-técnico do Amendoeira Golf Resort, no Algarve.

O Axis PGA Open atraiu 20 dos melhores profissionais portugueses e Nelson Cavalheiro não fazia parte dos favoritos. No final do primeiro dia estava no 4.º lugar, a Par do campo, com 71 pancadas. À sua frente tinha Tomás Melo Gouveia (-3), João Ramos (-1) e Miguel Gaspar (-1), tudo jogadores que têm andado a competir regularmente em circuitos internacionais.

Quando Nelson Cavalheiro terminou a segunda volta com 1 bogey no buraco 18 e um agregado de 141 (71+70), -1, empatado com o vice-campeão nacional, João Carlota (72+69), nem pensou ter quaisquer hipóteses de reclamar o prémio de mil euros, do total de 6 mil em disputa no torneio.

Amigo de João Carlota, de quem foi treinador durante algum tempo, foram almoçar juntos para o afamado restaurante da Clubhouse quando a meio da refeição foram interrompidos pelo presidente da PGA de Portugal, José Correia – era preciso jogarem um play-off entre ambos para decidirem o campeão.

"Estava à espera de um top-5, sabia que tinha jogado bem, mas não de ganhar", admitiu Nelson Cavalheiro, cujo único outro título individual da carreira fora o Masters da PGA de Portugal em Troia, em… 2001! Há uns aninhos.

"Por curiosidade, o torneio chamava-se Masters TMN, uma empresa do Grupo PT que também patrocinou este torneio", recorda-se.

Nada disso teria sido possível sem os erros dos seus rivais. Miguel Gaspar jogou os últimos 9 buracos em +3, Tomás Melo Gouveia fez +5 nos primeiros 9 buracos da última volta, João Ramos acabou com 2 bogeys e até mesmo o habitualmente seguro Tomás Silva fechou com bogey-Par-duplo bogey!

"O esforço físico que o campo exige faz com que seja necessário ter a concentração ao máximo do início ao fim, e mais ainda por ser um campo muito técnico. Não é dos mais compridos mas é muito técnico, tem bons greens e eu senti-me a 'patar' bem nos dois dias de prova", disse Nelson Cavalheiro, que é reconhecido como treinador exatamente pelo enfoque que dá ao aperfeiçoamento técnico dos seus jogadores.

Nelson Cavalheiro poderia ter ganho o play-off logo na primeira vez em que os jogadores foram para o buraco 18, mas acabaram por empatar e foi preciso jogá-lo uma segunda vez.

"No buraco 18, um Par-4, costumo sair de madeira-3, mas pensei que o João é um jogador forte e poderia ganhar-me vantagem logo ali, pelo que da segunda vez arrisquei sair de drive e a coisa correu-me bem, fiquei perto do green. Ele jogou um ferro e foi à direita, quando da vez anterior tinha saído mal à esquerda. Talvez estivesse nervoso. O João estava no meio das árvores em dificuldade enquanto eu meti a bola no green com um ferro-7 e garanti a vitória cumprindo o Par do buraco", narrou o campeão.

Derrotar João Carlota, o vice-campeão nacional, que este ano vinha de bons resultados – top-3 no Alps Tour, top-25 no Open de Portugal, vitória no Optilink PGA Open – foi obviamente especial.

"É um dos melhores jogadores nacionais, um jogador que já treinei, de quem sou amigo e com muito mais rodagem do que eu, pois eu estava apenas a jogar o meu segundo torneio do ano. Deu-me gozo, claro", admitiu.

"Faço 48 anos no domingo e foi a melhor prenda de anos que poderia ter", rejubilou.

Nelson Cavalheiro recebeu, entretanto, felicitações de membros do Amendoeira Golf Resort, de colegas de trabalho, de alunos, mas houve uma mensagem – «a primeira que recebi» – que lhe deu um prazer muito particular.

António Sobrinho, o recordista de 11 títulos de campeão nacional, telefonou-lhe e disse-lhe: "Ainda há espaço para os velhotes".

É verdade, no golfe, a idade ainda pode ser um posto e ajudar a desafiar as novas gerações, mas também ajuda ter sido um 'Boina Vermelha'.

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