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Portugueses juntos em torneio histórico

Pedro Figueiredo e Ricardo Melo Gouveia no ISPS Handa Vic Open da Austrália pela defesa da igualdade de géneros

Ricardo Melo Gouveia e Pedro Figueiredo são amigos de infância, uma amizade que se estende aos pais. No golfe tiveram percursos paralelos, chegaram a estar em simultâneo a estudar e competir nos Estados Unidos, mas "Melinho" na Florida e "Figgy" na Califórnia, e são ambos representados pela Hambric Sports. Só esta semana, aos 27 anos, coincidiram, finalmente, num mesmo torneio do European Tour, com ambos a deterem o estatuto de membros efetivos da primeira divisão europeia.
 
E foi preciso irem ao fim do Mundo, mais concretamente à Austrália, para jogarem o mesmo torneio, algo que era aguardado desde que a presente temporada se iniciou em novembro. Três meses e meio passaram-se entretanto, com Figueiredo a disputar cinco torneios e Melo Gouveia dois, até se reunirem no ISPS Handa Vic Open que terminou neste Domingo em Geelong, no Estado australiano de Victoria.
 
«Finalmente encontrámo-nos», disse Pedro Figueiredo à Tee Times Golf, em exclusivo para Record.
 
«Dividimos uma casa esta semana e tem sido ótimo. É sempre bom ter um amigo por perto, tanto para ele como para mim, e apoiamo-nos mutuamente na Austrália. É bem mais fácil quando temos alguém chegado por perto», acrescentou o atleta do Sport Lisboa e Benfica, que está a disputar a sua primeira época no European Tour, depois de ter-se qualificado no ano passado via Challenge Tour.
 
Os dois amigos inscreveram-se em torneios diferentes nos primeiros meses da temporada, mas também houve desencontros por Pedro ter ficado doente depois da Grande Final do Challenge Tour, em novembro, e depois, em janeiro, por Ricardo ter-se lesionado nas costas, quando já se encontrava no Médio Oriente. Aliás, foi a sua desistência que permitiu ao amigo entrar à última hora no Abu Dhabi HSBC Championship, o primeiro evento do ano da Série Rolex.
 
A lesão nas costas prejudicou bastante Ricardo Melo Gouveia, que no futebol é simpatizante do Sporting Clube de Portugal. A época tinha-lhe começado bem em novembro, com um 20.º lugar no Honma Hong Kong Open e um 40.º posto no Australian PGA Championship. Andou no top-40 da Corrida para o Dubai, mas a paragem de dois meses levou-o a tombar no início desta semana para a 128.ª posição. Ter falhado o cut esta semana fê-lo recuar ainda mais para 135.º.
 
De qualquer forma, depois de ter efetuado 141 pancadas, 3 abaixo do Par do 13th Beach Golf Links, com 71 (-1) no primeiro dia jogado no Creek Course e 70 (-2) no dia seguinte no Beach Course, o único português a jogar há quatro épocas seguidas no European Tour recuperou boas sensações.
 
«A lesão está 100% recuperada e não senti qualquer dor ou impedimento. Só estou um pouco fora de ritmo pois já não competia há muito tempo, mas, mesmo assim, consegui fazer duas voltas abaixo do Par», disse-nos Ricardo Melo Gouveia, que na sua conta no Twitter acrescentou estar bastante satisfeito com o seu novo equipamento: «Estou a adorar estes blades (ferros) Z-Forged da Srixon».
 
O cut fixou-se em 5 pancadas abaixo do Par, passaram apenas 36 jogadores para os dois últimos dias de prova e Melo Gouveia terminou no grupo dos 86.º classificados, entre 156 jogadores.
 
Mas se o profissional da Quinta do Lago parece estar curado, o seu amigo, pelo contrário, magoou-se também nas costas e atuou limitado esta semana.
 
«Neste torneio não estava em condições para atuar a 100%, porque na Arábia Saudita (na semana anterior) dei um jeito nas costas, o que impossibilitou-me de fazer voltas de treino aqui na Austrália e de estar a 100% para render o meu jogo normal. Até quinta-feira de manhã não sabia se iria conseguir jogar, mas consegui e até fiz uma volta aceitável no primeiro dia, já no segundo ressenti-me mais das costas e não joguei bem, impossibilitando-me de passar o cut», lamentou-se Pedro Figueiredo.
 
O profissional do Quinta do Peru Golf & Country Club fechou a prova no grupo dos 134.º classificados, com 145 pancadas, 1 acima do Par, somando rondas de 69 (-3) no Creek Course e 76 (+4) no Beach Course. A primeira volta foi, de facto, positiva, com 2 birdies e 1 eagle para apenas 1 bogey, deixando-o no 65.º posto provisório, com algumas hipóteses de lutar pela passagem do cut no dia seguinte se não estivesse lesionado.
 
Pedro Figueiredo também teve um início de temporada positivo, com um 23.º lugar no Afrasia Bank Mauritius Open at Anahita em dezembro, seguindo-se um 48.º posto no South African Open hosted by the City of Johannesburg.
 
Nessa altura chegou a andar no top-60 da Corrida para o Dubai, mas depois falhou quatro cuts consecutivos: 148.º (+13) no Alfred Dunhill Championship, ainda em dezembro; já em janeiro, 119.º (+4) no Abu Dhabi HSBC Championship e em fevereiro, antes de rumar à Austrália, 95.º (+4) no       Saudi International powered by SBIA, um torneio polémico por o European Tour ter viajado a um país que tem sido condenado internacionalmente pelo assassinato de um jornalista dissidente desde o final do ano passado, na Turquia.
 
A principal consequência destes cuts falhados foi a progressiva queda no ranking europeu do jogador da Navigator, que surge agora no 147.º posto.
 
«Não tenho jogado nada de especial nestes últimos torneios e os resultados demonstram-no, mas tem sido por razões diferentes. Em alguns torneios o shot do tee, sobretudo o drive, tem-me dificultado a obtenção de bons resultados. No European Tour é muito importante jogar bem o drive, porque os campos são exigentes, os roughs são difíceis, os buracos são estreitos, pelo que é um taco importante e com o qual não tenho estado especialmente bem. Neste último torneio não foi bem o caso até porque eram campos que adaptavam-se bem às minhas características, de links com algum vento, fairways duros, em que era mais importante jogar para a posição do que bater comprido, mas aconteceu aquela lesão nas costas», admitiu Pedro Figueiredo.
 
Havendo ainda muitos meses pela frente, o importante, nesta altura da época, é não entrar em pânico: «Tenho lidado de forma positiva com estes maus resultados, porque os golfistas sabem que há fases boas, há fases menos boas, há que aceitá-las, há que trabalhar para sair delas. Com calma, paciência e persistência já saí de fases menos boas, portanto não tenho dúvidas de que os resultados mais cedo ou mais tarde acabarão por aparecer. É com otimismo que me vejo».
 
Pedro Figueiredo e Ricardo Melo Gouveia voltam a competir para a semana na Austrália. Na quinta-feira começa o ISPS Handa World Super 6 Perth, de 1 milhão em prémios monetários, no Lake Karrinyup Country Club, em Perh, mas este VIC Open em que não foram bem-sucedidos deverá, apesar de tudo, ficar-lhes na memória. Não só por terem finalmente atuado juntos, mas, sobretudo, por ter-se tratado de um evento histórico para o golfe mundial.
 
Com efeito, embora o ISPS Handa Vic Open exista desde 1957 como o Open do Estado de Victoria, integrado no circuito masculino do PGA Tour of Australia, a verdade é que sofreu um interregno entre 1992 e 2012 e renasceu como um torneio misto. Tem a fama de ter sido o primeiro torneio de golfe em que homens e mulheres competiram nos mesmos campos em simultâneo com o mesmo montante de prémio monetário em jogo. Uma revolução numa modalidade em que o setor masculino é tradicionalmente encarado como parente pobre.
 
Mas se isto se passa desde 2012, qual foi a novidade em 2019? É que até ao ano passado contava apenas para o PGA Tour of Australia (masculino) e para o Australian Ladies Professional Golf (feminino). Mas este ano o evento estreou-se como fazendo também parte do LPGA Tour (o mais importante circuito mundial feminino, com sede nos Estados Unidos) e do European Tour (o segundo mais importante circuito mundial masculino, com sede na Europa). O mediatismo foi muito superior.
 
Muitas vezes, quando jogadoras e jogadores coincidem, seja em torneios amadores, seja em profissionais, há discriminação em detalhes organizativos, como, por exemplo, nas saídas. Não é o caso. Grupos de três jogadoras e três jogadores saíram alternadamente dos tees e cada torneio ofereceu um total de 950 mil euros em prémios. Um passo fundamental para a luta pela igualdade de direitos entre géneros.
 
O ISPS Handa Vic Open teve ainda a característica, bem visível nas transmissões da SportTV, de não ter cordas a separar os atletas do público, possibilitando uma proximidade maior entre as estrelas da modalidade e os fãs. Uma reminiscência do golfe de séculos passados que agradou a muitos jogadores.
 
No total, competiram 156 jogadoras e outros tantos jogadores. Passaram o cut 36 membros do European Tour ou do PGA Tour of Australasia e 43 sócias do LPGA Tour ou do Australian Ladies Professional Golf.
 
A prova masculina foi ganha pelo escocês David Law, de 27 anos, da mesma geração dos portugueses Figueiredo e Melo Gouveia, com 270 (67+66+71+66), -18, com 1 pancada de vantagem sobre os australianos Wade Ormsby (65+66+70+70) e Brad Kennedy (67+65+72+67). Foi o seu primeiro título no European Tour. Só foi conseguido graças a uma confluência de fatores, entre os quais o bom final de prova do escocês (birdie-Par-eagle).
 
Há menos de um ano, David Law pensava pendurar os tacos e dedicar-se a outra profissão. Mas ganhou o SSE Scottish Hydro Challenge hosted by Macdonald Hotels & Resorts do Challenge Tour em junho e mudou de ideias. Terminou 2018 no 14.º lugar da Corrida para Ras Al Khaimah, um lugar à frente de Pedro Figueiredo. Foram os dois últimos apurados para o European Tour de 2019. Esta época jogou cinco torneios e já é campeão no European Tour, garantindo que irá permanecer na primeira divisão em 2020. Grande história!
 
«Que vitória fantástica David Law. Estou feliz por ti "mate". Que 3 pancadas para fechar», escreveu no Twitter Ricardo Melo Gouveia.
 
No torneio feminino, a francesa de pais tailandeses Céline Boutier, de apenas 24 anos, conquistou o seu primeiro título no LPGA Tour. A antiga n.º1 mundial amadora totalizou 281 pancadas, 8 abaixo do Par, após voltas de 69, 71, 69 e 72, batendo por 2 as australianas Sarah Kemp (70+71+77+65) e Su Oh (67+68+74+74), e a inglesa Charlotte Thomas (68+68+78+69).
 
Autor: Hugo Ribeiro/Tee Times Golf
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