Ser atleta olímpico: das diferenças de apoios às dificuldades pessoais

Emanuel Silva, Vanessa Fernandes e Lenine Cunha protagonizaram debate no ‘Porto Sports Summit’, em Espinho

O ‘Porto Sports Summit’ juntou, ao final da manhã de hoje, três figuras do deporto português num debate sobre o que é ser um atleta olímpico. Emanuel Silva, Vanessa Fernandes e Lenine Cunha abordaram o orgulho de representar o país, as diferenças nos apoios financeiros e também as dificuldades que tiveram de superar ao longo da carreira.

Vanessa Fernandes, triatleta do Benfica, chegou a afastar-se alguns anos da competição no início desta década, devido a problemas de saúde que resultaram do excessivo foco na competição. Defendendo que há vida para lá da prática desportiva e da conquista de êxitos, Vanessa Fernandes lembrou um pouco dessa fase.

"Estive um ano dentro de uma casa em recuperação e não me queixei a ninguém disso. Eu andei durante 1, 2, 3, 4 anos a lutar por mim, pela dificuldade que estava a passar. Queixar-me nunca me passava pela cabeça, por mais dificuldade que estivesse a ter… Todo o atleta tem a sua dificuldade. Se me queixo da vida que tenho, estou completamente lixada", afirmou a atleta que foi medalha de prata no triatlo, nos Jogos de Pequim 2008, lembrando sentimentos "de um patamar abaixo da tristeza" durante esse interregno.

Lenine Cunha, o atleta paralímpico mais medalhado em todo o Mundo, com 203 medalhadas internacionais, falou do "bullying" que sofreu na juventude e da importância do desporto no sentido de um melhor desenvolvimento pessoal e social. Lamentou as diferenças nos apoios aos atletas paralímpicos, mas ressalvou que essa realidade está a mudar.

"Eu sobrevivo dos patrocinadores, não da bolsa paralímpica. Neste momento as bolsas são quase iguais aos olímpicos, em 2021 estarão iguais. Começaram por 50% do que os olímpicos ganham, este ano 75%, para o ano 85% e 2021 estará igual. Fico muito orgulhoso. Eu e os colegas que já desistiram andámos anos e anos a lutar por esta igualdade e a futura geração terá o que eu e outros colegas não tivemos. Mas terão de se empenhar, pois nós fizemos o que fizemos sem apoios", contou o atleta de Vila Nova de Gaia.

E numa vida de alta competição a família é um pilar nem sempre aproveitado como pretendem os atletas, conforme contou o canoísta Emanuel Silva. "A minha filha tem 13 anos. Se eu for a Paris 2024, aí a minha filha terá 17 anos, idade de sair à noite, não quer saber do pai. E aí vou pensar que a alta competição deu vitórias e coisas boas, mas também não me deu o que eu queria, que era ter a minha filha ao colo", sintetizou.

Emanuel Silva lembrou ainda a importância de lidar com a pressão dos resultados e analisar bem o meio antes de o abraçar. "Há que analisar bem se vale a pena ser atleta de alta competição. Há uns anos ouvi um atleta dizer que em Portugal só compensa ser atleta de alta competição se ganhar medalhas. Estamos num país assim, infelizmente."

Por André Gonçalves
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