Ivo dos Santos: australiano com o mesmo "fado" lusitano
"Fiz dois anos três dias depois de chegar à Austrália, ainda bebé...
Ivo dos Santos tem nome português, nasceu em Lisboa e perdeu, como os judocas portugueses, nas provas preliminares dos Jogos Olímpicos Londres'2012, com a diferença de ter combatido pela equipa nacional australiana.
"Fiz dois anos três dias depois de chegar à Austrália, ainda bebé", contou o atleta de 26 anos à Lusa, num português fluido mas com sotaque anglo-saxónico.
A partida, em família, em 1987, foi ditada pela "vida difícil" da altura, levando o pai, pintor de aviões, a aceitar uma oferta do outro lado do mundo para fazer o mesmo trabalho.
Ao fim de três anos, a família estava integrada na sociedade de acolhimento e o pai, que tinha sido praticante amador na equipa da TAP, descobriu num jornal local que o clube da terra tinha judo e decidiu inscrever-se e aos filhos, Marina, de oito anos, e Ivo, na altura com cinco.
A irmã desistiu durante a crise da adolescência, mas Ivo, que foi experimentando outras modalidades, continuou e, 20 anos depois, chegou ao topo da carreira.
Campeão nacional desde 2010 na categoria de -66 kg, foi 17.º e 33.º nos campeonatos mundiais de 2010 e 2011, respetivamente, e chegou a Londres no 13.º lugar do ranking mundial, caindo para 21.º após a dececionante competição olímpica.
Participar nuns Jogos Olímpicos era um sonho de criança, confiou à Lusa, mas na estreia sucumbiu ao "fado" português destes Jogos.
Tal como Telma Monteiro, Joana Ramos, João Pina e Yahima Ramirez, Ivo dos Santos foi eliminado no primeiro combate, com o britânico Colin Oates, que por sua vez perdeu nos quartos de final com aquele que viria a conquistar a medalha, o georgiano Lasha Shavdatuashvili.
"Tive um sorteio difícil, o rapaz da Grã-Bretanha é muito forte, e com o apoio de todo o público ganhou por ponto mínimo. Foi difícil porque eu pensei que podia ganhar e tinha hipótese de continuar", lamentou o australiano.
Durante os torneios internacionais, torce sempre pelos portugueses, mas é fiel à Austrália, nação onde se formou como judoca, mesmo se tem feito carreira sem apoios.
"Na Austrália não há apoio nenhum financeiro da Federação ou Comité Olímpico. Treinos, viagens, tenho de pagar tudo do meu bolso", enfatiza o judoca, que pondera retirar-se da competição.
Refere que os últimos quatros anos têm sido muito difíceis, tendo de acumular uma vida familiar, um trabalho, os treinos e as provas. "Se fosse mais fácil, gostava de continuar a treinar e combater", confessa, antes de acrescentar:
"Tenho de casar, tenho mulher em casa, a vida tem de continuar sem o judo".
A permanência no desporto depende de conseguir patrocínios, pois beneficiar dos apoios portugueses seria difícil já que teria de parar de competir dois anos para poder ser integrado noutra equipa nacional.
É grande amigo de Pedro Dias, que competiu por Portugal em Pequim'2008, mas que entretanto se retirou da competição, fala sempre aos treinadores Michel Almeida e Rui Rosa e, quando visita o país de origem, aparece nos treinos da seleção.
Porém, considera que seria "difícil lutar como português contra os australianos. Sou australiano, tenho passaporte australiano, tenho de lutar pela Austrália".