_
RECORD - Vai para a quarta participação nos Jogos Surdolímpicos. É uma competição especial?
JOANA SANTOS – Os Jogos Surdolímpicos são o ‘topo’ do desporto para surdos, por isso são especiais. Em 2009, em Taipé, conquistei o ouro. Em 2013, em Sófia, fiquei com a prata e em 2017, em Samsun, obtive o bronze. Nunca se sabe o que nos espera. Com o passar dos anos, há cada vez mais participação de atletas, sobretudo gente jovem com grande qualidade que não conhecemos. Estou a treinar para fazer o melhor.
+ No ano passado sagrou-se campeã mundial na categoria dos -57 kg. Sente-se pressionada para juntar ao título mundial o ouro nos Jogos Surdolímpicos?
JS – Já passei pela situação de conquistar o ouro e posso dizer que é uma sensação incrível. Trabalho sempre com o objetivo de alcançar o melhor resultado, treino todos os dias de manhã e à tarde sempre acompanhada e incentivada pelo meu treinador, que me ajuda muito nestas fases de grandes competições.
+ Sendo a única mulher portuguesa na competição, sente que é vista como um exemplo?
JS – Quando estou em competição não existe esse pensamento, estou focada apenas na adversária que está naquele momento à minha frente. Todavia, sinto que sou um exemplo não só para muitas mulheres, mas também para a toda a comunidade surda.
+ Com nove anos experimentou pela primeira vez o judo. Como é que lidou com o facto de ser a única atleta surda?
JS– Quando comecei tive muita sorte, pois era a única surda e formei equipa com mais 6 ou 7 raparigas da minha idade e que me ajudaram muito. Faziam de tudo para nos compreendermos, desde escrever na parede a usar gestos que só nós percebíamos. Foi mesmo muito bom, nunca me senti ‘diferente’.
+ Sentiu que o judo era a sua forma de se expressar no mundo?
JS – O judo tem sido uma forma de motivação para tudo o que faço na minha vida, com alguns bons momentos e outros menos positivos. Senti, sobretudo, que era o meu lugar, longe de pensar seguir uma carreira. Mas depois comecei a participar em torneios e a ganhar medalhas e tudo foi surgindo naturalmente. Houve uma boa ligação com o treinador. Não falávamos mas gostei dele.
+ Disse que gostava de ouvir quando as pessoas gritam por si. Como é que lida com esse silêncio na vida e em competição?
JS – Sim, gostava muito de ouvir quando estão nas bancadas a puxar por mim, não faço ideia o que dizem, mas sinto essa boa vibração. Mas nem tudo é negativo. Por exemplo, na República Checa, num estádio gigantesco, era a única surda e fui competir para a medalha de bronze contra uma atleta da ‘casa’. O público estava logicamente a torcer por ela, a gritar, tudo de bandeiras no ar... Mas acabei por vencê-la e nesse momento apenas pairou o silêncio a que já estou habituada.
+ Treina com nomes consagrados como Jorge Fonseca e Telma Monteiro. Como é a vossa relação?
JS – Somos parceiros de treinos há muitos anos. No fundo, existe um espírito de camaradagem entre todos.
+ A deficiência auditiva não integra os Jogos Paralímpicos. É marginalização?
Js - Está melhor, mas o caminho não está todo percorrido. Mesmo não integrando os Jogos Paralímpicos, devíamos todos ter os mesmos direitos. Somos todos portadores de deficiência, seja qual for. Um ouro paralímpico vale 20 mil euros e um ouro surdolímpico vale metade...
+ É difícil atrair pessoas surdas para o desporto?
JS– Sim. No Algarve temos tentado que as crianças surdas integrem os meus treinos, servindo assim de exemplo.
+ É mãe de um menino de 3 anos. Ele já é fã de judo?
JS– Não gosta muito. Prefere natação e futebol, com alguma pena minha. Mas quando for mais crescido gostaria que ele olhasse para mim como uma mãe, que mesmo com esta vida de andar sempre a treinar e a viajar, lhe proporcionou sempre o melhor.
+ Tem 32 anos. Vai estar nos Jogos de Tóquio em 2025?
JS –Sim, se tudo correr bem.Espero ainda participar. Gostaria muito de fechar o ciclo com uma medalha.
+ E depois? Já tem planos?
JS – Regressar à minha área, que é o Design da Comunicação, e tentar a minha sorte.
Por Luís Mendes Júnior