Diogo Carmona assume que "qualquer resultado" é uma vitória nos Paralímpicos de Inverno

"Tenho 97 dias de neve, com a prancha debaixo dos pés, sei que é muito pouco tempo", afirma

Seguir Autor:

A carregar o vídeo ...
Diogo Carmona: acidente comboio

Em 2022, três anos após perder parte da perna esquerda num acidente, Diogo Carmona experimentou o snowboard e, no sábado, vai protagonizar a estreia de Portugal em Jogos Paralímpicos de Inverno, nos quais "qualquer resultado será uma vitória".

"Tenho 97 dias de neve, com a prancha debaixo dos pés, sei que é muito pouco tempo", assumiu, à agência Lusa, lembrando que recentemente o italiano Emanuel Perahooner, dono de várias medalhas paralímpicas, lhe disse que esse é o tempo que compete por semestre.

Aos 28 anos, o também ator Diogo Carmona confessou ter ficado surpreendido, pela positiva, com os resultados conseguidos no snowboard, mas recusa-se a estabelecer um objetivo para a prova de banket slalom, dos Jogos Milão-Cortina, que decorrem até domingo.

"Espero surpreender-me e surpreender as pessoas que estão a ver", assegurou, depois de admitir que também ficou "espantado" com a forma como conseguiu recuperar de uma lesão no pé, que lhe complicou a qualificação e a preparação.

Depois das dores que sentiu "até fevereiro, e que afetaram a preparação e progressão" Diogo Carmona garantiu: "Agora tenho dores residuais, nada demais, o meu pé está praticamente a 100% e estou mais do que pronto para competir",

Bem mais complexa e difícil foi a recuperação do acidente que sofreu em 2019, quando foi atropelado por um comboio e perdeu parte da perna esquerda, que o deixou "muito, muito desanimado".

"Depois de perder a minha perna, fiquei muito em baixo de forma física, também psicológica" explica, admitindo que, por vontade própria, e por insistência da mãe, a quem é "muito grato", voltou ao ginásio.

Essa decisão trouxe-lhe "hábitos mais saudáveis" e alento para voltar ao skate park, onde era "doloroso ir" depois do acidente e ver os amigos a fazerem manobras.

Ganhou coragem, voltou a comprar um skate e a andar de calções que "era algo de que tinha vergonha", comportamento do qual hoje se ri: "Hoje olho para trás e penso que estupidez, porque eu deveria ter vergonha de mostrar a minha perna?".

Por agora, o foco está no snowboard, modalidade na qual competirá na prova de banket slalom, no sábado, mas Diogo Carmona assumiu também a ambição de competir nos Jogos Paralímpicos de Verão, quando o skate integrar o programa.

Com uma imagem que muitos ainda ligam ao ator de várias séries televisivas nas quais participou durante a infância e juventude, Diogo Carmona descreve-se como uma "pessoa ambiciosa".

"Às vezes, a imagem acaba por enganar um pouco. Posso parecer ou dizer coisas superficiais, mas existe alguma profundidade. Tenho algumas camadas, e sei que sou uma pessoa ambiciosa", contou, admitindo que a imagem mediática "pode ajudar a divulgar o desporto para pessoas com deficiência".

É com gratidão que fala do treinador, Nuno Marques 'Mancha', o homem que o iniciou no snowboard e que o "atirou aos leões" na sua primeira competição, que descreveu em poucas palavras: "É alguém que acreditou em mim, quando ninguém mais acreditava".

Foi no Instagram que 'Mancha' viu Diogo Carmona a fazer manobras de skate, quando o ex-ator voltou à prática da modalidade depois do acidente, e quase de imediato surgiu o convite.

"Ele viu esses vídeos, entrou em contacto comigo e disse-me: 'Diogo, há falta de atletas olímpicos e paralímpicos de snowboard em Portugal. O que é que tu achas de experimentares um dia? Só para ver como é que corre'", recordou.

Pouco tempo depois do primeiro contacto com a modalidade, chegou a Europa Cup, e foi aí que Diogo Carmona se sentiu "atirado aos leões".

"Creio que foi uma excelente decisão da parte dele, atirar-me assim para os leões, porque foi exatamente isso. Atirou-me para algo que eu não estava preparado e obrigou-me a ter de puxar por mim", lembrou.

Juntos, Diogo Carmona e 'Mancha' choraram "de emoção, na cerimónia de abertura da 14.ª edição dos Jogos Paralímpicos, uma competição que junta mais de 650 atletas, que estão a ser mais uma "lição de vida".

"Além das nossas deficiências, existem outras dificuldades adjacentes nas quais às vezes nem pensamos e não temos noção do que é outros atletas podem estar a passar", afirmou o snowboarder, acrescentando: "Enquanto falo consigo, estou no ginásio e estou a treinar com um atleta ucraniano, que já partilhou um pouco da realidade do seu país e de como é a treinar lá".

Diogo Carmona, que já fez história no desporto paralímpico português, entende que o resultado pode não ser o mais importante e deixa um conselho a quem, como ele, se viu confrontado com uma deficiência: "Seguir aquilo que nos faz felizes".

Deixe o seu comentário
Newsletters RecordReceba gratuitamente no seu email a Newsletter Geral ver exemplo
Ultimas de Paralímpicos
Notícias
Notícias Mais Vistas