José Manuel Lourenço: «Vida não começa nem acaba no desporto»

Presidente do Comité Paralímpico de Portugal elogia a transparência em relação a Tóquio’2020

• Foto: Filipe Farinha

RECORD - Com o adiamento dos Jogos de Tóquio, qual o impacto que a Covid-19 pode ter no Comité Paralímpico de Portugal (CPP)?

JOSÉ MANUEL LOURENÇO – Os problemas mais significativos podem vir a ser a nível desportivo. Temos mais um ano pela frente do que o planeado e a própria paragem tem implicações na forma como é retomada a atividade. Por outro lado, há incerteza devido aos novos critérios de apuramento. Ainda não sabemos bem como vai ser. É também incontornável abordarmos os impactos financeiros. Como é sabido, a nossa projeção no apoio aos atletas apontava a três datas. Uma para julho, em que ficariam no projeto aqueles que iam aos Jogos e outubro para os que ficariam nos oito primeiros lugares nos Jogos. Os restantes voltariam a entrar depois de janeiro quando concretizassem resultados desportivos que justificassem esse apoio. Não havendo Jogos, não faz sentido, e seria injusto, retirarmos atletas do projeto.

R - E até já se admite que os Jogos podem ser cancelados em definitivo, caso não haja condições em 2021. Não é um alarme evitável?

JML – O valor mais importante de todos é a saúde. Se não houver condições, importa preservá-la. Temos várias questões a resolver no que diz respeito à missão e criar uma imagem de que está tudo bem pode ser uma política errada. O assunto deve ser tratado com transparência. Os Jogos não podem ser feitos a todo o custo. A vida não começa nem acaba no desporto, apesar de, claro, ter uma grande importância para os atletas.

R - Qual é o feedback que tem obtido por parte das federações?

JML – A maior preocupação é mesmo a incerteza em relação às competições. Na natação, por exemplo, estava previsto um Campeonato da Europa no Funchal este ano e um Campeonato do Mundo no próximo ano. Para o ano só haverá uma das provas. Há adiamentos sem data específica. Há incerteza. É uma preocupação das federações, do CPP, atletas e treinadores.

R - Já admitiu que há um impacto ao nível financeiro. E o Comité Paralímpico Internacional (IPC) já revelou ter problemas nesse âmbito. O CPP teve ajuda deste organismo?

JML – Não tivemos e vejo com dificuldade que isso venha a acontecer. O IPC não tem o lastro financeiro do Comité Olímpico Internacional, que já sinalizou o apoio. E consigo entender. As dificuldades resultam do facto de eles terem uma expectativa de receitas que seriam concretizáveis até agosto. Agora, esses valores foram deferidos.

R - E, no âmbito nacional, sente que o Governo tem atendido às preocupações do desporto em geral e do Comité Paralímpico?

JML - Este Governo evidenciava alguma vontade política de mudar o paradigma. Mas este reforço não teve em conta esta tragédia que a Covid-19 nos trouxe. Nós, para já, temos de quantificar a diferença que vai existir em termos das bolsas e da preparação. Mas vamos aguardar. Temos as contas feitas e quando for oportuno falaremos com o Governo. Agora, a prioridade deve ser dada à saúde, que é fundamental, e que se restabeleçam as condições sanitárias e de confiança. A seu tempo, falaremos com o Governo, com o qual sempre tivemos uma excelente relação.

«Receitas? É importante mudar as regras»

R - Já referiu que é necessário priorizar a saúde nesta altura. Mas a luta pela redistribuição das receitas dos jogos sociais é para ser mantida?

JML - Isto é um tema atual e é importante mudar as regras. É necessário que haja vontade política e determinação. Há questões de justiça e equidade que devem estar presentes. Acredito que o Governo tenha essa sensibilidade. É imperativo que se faça esta alteração dos atuais critérios, mais do que nunca. Se não houver desenvolvimento desportivo, não vamos ter atletas de alto rendimento. Precisamos de renovar, de ter uma maior base de recrutamento. Isso tem de se fazer com investimento e também sensibilização, pois é necessário quebrar o estigma relativamente ao facto de as pessoas com deficiência fazerem desporto. Para isso, é preciso haver recursos.

Por Rafael Soares
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