Luís Gonçalves: Quando um comprimido lhe roubou o sonho

Atleta recorda o castigo de doping que o tirou de Londres’2012

• Foto: Miguel Barreira

Faltava um mês para os Jogos de Londres’2012 e, na derradeira fase de preparação, Luís Gonçalves foi a Stadskanaal, na Holanda, cumprir uns Campeonatos Europeus. Uma prova de rotina, na qual entrava para ganhar, mas também para conseguir ritmo para tentar repetir o bronze que conseguira em Pequim. E foi aí que viu o sonho de ir aos Jogos britânicos esfumar-se, tudo por causa de um mero comprimido.

"Disse e sempre direi, eu sou contra quem se dopa, contra o jogo sujo. Gosto de jogar limpo. O que aconteceu foi que estive numa cidade holandesa, durante os Europeus, em Stadskanaal, que era muito pacata. Era dormir, treinar, nada mais. Acabámos por ficar monótonos, cansados, moles... E disse a um colega meu para me dar um comprimido dos que tinha com ele, que era para emagrecer e que tinha cafeína. Supostamente era essa a base, uma coisa perfeitamente normal, era como se bebesse dois cafés. Tomei aquilo para ver se espevitava. No dia a seguir competi e fui ao controlo. E fui caçado! Com um comprimido... Fui ao controlo, descansadinho da vida... Tinha uma substância inofensiva, que não me fez nada, pois fiquei totalmente igual, mas que era um broncodilatador, que está na classe C dos estimulantes. Substância que demora muito pouco a sair do organismo, mas quando fui fazer o teste havia resíduos mínimos no meu corpo e foi o suficiente", recorda.

Uma suspensão de dois anos seguiu-se, um período no qual Luís Gonçalves chegou a pensar no pior. " Foi um balde de água fria... Foi uma das alturas negras da minha vida, onde pensei em desistir. Pensei mesmo. Só que depois pensei 'não fizeste nada de propósito, por que vais desistir?'. Foram dois anos para relaxar, para estudar... Aproveitei essa fase. Voltei depois, em 2014, e desde então estive em quatro competições internacionais e fui medalhado em todas. Duas pratas, um ouro e um bronze. Não tenho de provar mais nada a ninguém e dei chapadas de luva branca a quem me chamou drogado! Calei toda a gente", frisa.

Agora, com a lição aprendida, o velocista assegura que não volta a cair no mesmo erro. "Tudo o que tomo é receitado pelo nutricionista e com o aval do médico. Nada mais. Nunca mais. Café, se for preciso tomo três seguidos!", garante.

Os últimos Jogos... que deixaram de o ser

Depois do calvário provocado pela suspensão, Luís Gonçalves voltou em grande e atacou os Jogos Olímpicos para conseguir o seu melhor, mas sem grandes expectativas. Na cabeça, o atleta português até pensava que estava em má forma...

"Esta medalha teve um sabor diferente, porque estes eram para ser os meus últimos Jogos, já que o Europeu que fiz em julho não me correu da melhor. Pensava que estava num mau momento de forma. Pensei 'vou treinar, vou porque tenho o lugar garantido e vou representar o meu país da melhor forma possível e no final acabou...' Não ia a pensar que ia conseguir a medalha. Ia com vontade, como é óbvio, mas não ia com aquela sensação de que ia conseguir... Não sabia ao que ia, fui em branco e se calhar foi a melhor coisa que me aconteceu. Não estava pressionado com nada nem por ninguém. Ninguém pode exigir mais de mim do que eu faço. Correu bem. Andei como nunca andei, foi ótimo. Tive um teste de resistência durante os Jogos. Aquelas provas seguidas foi uma coisa... Foi bom! Valeu. Agora não me dá vontade de desistir, quero é mais. Quero ir a Tóquio e estou cheio de força", garante.

Por Fábio Lima
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