Luís Gonçalves: «Seria desprestigiante dar prestígio aos paralímpicos»

Velocista explica a razão que leva a não haver reconhecimento

• Foto: Miguel Barreira

Para lá dos reparos feitos ao seu clube, Luís Gonçalves estende as críticas a quem governa o país, mas também às entidades que comandam o desporto em Portugal. E, na hora de pedir mais igualdade, o velocista do Sporting deixa uma análise curiosa.

"Esperava que fosse diferente. Saiu um comunicado a felicitar-me e pensava que as coisas fossem diferentes à nossa chegada a Portugal. Caiu em esquecimento e posso dizer porquê. Porque iria ser desprestigiante, por exemplo para a Federação Portuguesa de Atletismo, dar prestígio aos atletas paralímpicos que trouxeram medalhas e não aos olímpicos, que não trouxeram qualquer medalha. Não gosto de pôr as coisas nestes termos, mas a falta de divulgação, de apoio, de comunicação por parte destas entidades, acho que se deve a isto", começou por dizer-nos, dando depois do exemplo do sucedido no ano passado para suportar aquilo que acabara de afirmar.

"O Nélson Évora fez medalha num Europeu e um Mundial e eu também o fui num Mundial. Foi a primeira vez que houve uma divulgação tão grande de atletismo adaptado. E porquê? Porque fui medalha de ouro, mas só foi notícia porque o desporto normal também trouxe medalhas. Podia haver uma mistura e, assim, ninguém iria olhar mais para estes do que para aqueles. Este ano foi exatamente o contrário. Houve medalhas no paralímpico e no regular não. A divulgação não foi tanta. Não estou a querer dizer que devemos ser mais divulgados, não é nada disso. Só peço é igualdade, mais nada. É isso que me revolta e me deixa triste. Isto nunca vai mudar. Há coisas que vão mudando aqui e ali, mas nós paralímpicos nunca vamos ter a visibilidade que os olímpicos têm. Já ouvi várias promessas ao longo dos anos e digo aquilo que um colega meu disse um dia 'só acredito vendo' e eu estou cá para ver", atirou.

E o que poderia ser feito para mudar esta realidade? Record lançou na mesa uma possível solução, que passava por uma maior ligação entre os Comités Olímpico e Paralímpicos, algo que Luís Gonçalves veria com bons olhos. "Uma parceria que poderia fazer a diferença. A questão que se coloca é: eu treino; um atleta de desporto regular também treina. Todos treinamos; todos sofremos para conseguir os nossos objetivos. Eu ganho medalhas; eles ganham medalhas. Porquê essa discrepância tão grande de apoios e visibilidade entre nós?", questiona.

Estudante de naturopatia – frequenta o terceiro ano -, Gonçalves recorda que o nível nunca esteve tão elevado e deixa claro que vários atletas paralímpicos poderia dar luta aos atletas ditos regulares nuns Olímpicos. "Se esses atletas estivessem lá, iria ser difícil, mas iriam dar luta. Nos nossos Jogos tivemos elementos do nosso governo a assistir a provas, algo que, no meu ponto de vista, é quase igual a nada, porque pouco ou nada percebem de desporto. Porque quem percebe de desporto viu que o nível esteve muito alto. Este ano equilibrámos as contas em relação ao número de medalhas relativamente a Londres’2012, mas não é fácil. Especialmente quando temos de dedicar a outras coisas na vida, para sobreviver, até! Isto porque não nos conseguimos dedicar a isto de corpo e alma como os outros", lamenta.

Essenciais para manter esta chama competitiva ativa têm sido as pessoas mais próximas de si, até porque as verbas que recebe do CPP (518 euros) e do Sporting (50€) não lhe chegam para fazer face a todas as despesas. "Se não fosse a colaboração da minha namorada e dos meus pais, isto não era possível. As rendas, despesas... Não é fácil. Não o dinheiro que faço com as massagens que vou fazendo, porque é algo esporádico. Conto os 518 da bolsa do CPP e os 50 euros do Sporting", explica-nos.

"Na Europa somos um dos únicos países que não dá igualdade entre atletas olímpicos e paralímpicos. Houve elementos do nosso governo que andaram a sondar dirigentes de outros Comités Paralímpicos europeus exatamente sobre essa questão. Porque acham que é teimosia da nossa parte em querer ter mais alguma coisa. Talvez achem que não merecemos. Como nos disseram há uns anos 'vocês não podem receber tanto como os olímpicos porque têm mais medalhas e mais provas. Porque nos 100 metros há várias provas e no olimpismo há só uma'. É ridículo. Ninguém percebe... Mas a realidade é esta", lamenta.

Quando um atleta não se enquadra numa marca… desportiva

Questionado sobre o que entende faltar para que uma mudança seja conseguida, o atleta leonino recorda um episódio vivido num passado recente.

"O que falta? Falta a mentalidade das pessoas ser um pouco menos quadrada. Lembro-me, há uns anos, fui pedir um patrocínio à Asics e negaram-me, porque não me enquadrava. Mas foram atribuí-lo aos Anjos. Se eu, desportista, não me enquadro, um duo musical vai enquadrar-se? Enquadra-se na questão mediática e é essa a diferença. Mando cartas, e-mails, vou a reuniões e continua tudo igual. Felizmente nunca precisei de nada nem de ninguém, para lá do apoio de treinador, colegas e família, para conseguir estar onde estou. É óbvio que as coisas tornavam-se um pouco mais facilitadas...", explica.

Por Fábio Lima
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