A vida 'doméstica' em confinamento aumenta a ansiedade de Yahima Ramirez

Yahima Ramirez assume sentir mais ansiedade durante o confinamento, ao ter de conciliar os treinos com a vida 'doméstica' de mãe de dois jovens, que tentam não provocar-lhe mais stress do que aquele que já tem enquanto judoca.

"Com certeza [o confinamento] causa mais ansiedade, porque quando estás só focada no treino, não tens o resto das responsabilidades sistematicamente como tens agora na pandemia, porque estamos todos enfiados em casa. Tornou-se mais visível o stress. Quando eles [filhos] estão fora, também estão a canalizar essa energia, no convívio com os amigos, com as experiências presenciais na escola. Estando em casa, é sufocante. Sufocante porque isto já dura há tanto tempo, quase já olhamos uns para os outros e estamos fartos. Inicialmente, pensávamos que esta pandemia ia proporcionar-nos mais tempo em família. Mas, verdade seja dita, precisamos do nosso próprio espaço", assume.

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A judoca de 41 anos tem dois filhos - André, de 22, e Rafael, de 15 - e relata à Lusa a 'odisseia' que é ser atleta e mãe durante o confinamento, destacando, contudo, que ambos são "bons rapazes".

"São disciplinados, não tenho motivos de queixas. Como sabem que sou atleta, e ser atleta é bastante stressante -- embora eles não tenham culpa, nem façam parte desse processo do meu stress por causa de resultados, treinos, e agora por causa da pandemia -, tentam não provocar-me mais stress do que aquele que eu tenho. Eles são bastante solidários comigo", elogia.

No caso de Rafael, "que está na fase da adolescência", é, segundo Yahima Ramirez, preciso "controlar um pouco mais".

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"Tenho verificado que, nestes tempos em casa, os jovens adolescentes jogam muitos videojogos. Tenho de estar sempre em cima dele: 'por favor, larga os videojogos'. Ele diz que está a aproveitar os tempos livres e eu pergunto-lhe porque não aproveita para ler um livro. A mim, faz-me confusão por que são tão viciados. Eu preferia que ele aproveitasse para ir fazer uma caminhada, ou andar de bicicleta, aproveitar o ar livre, mas não. Este vício do século XXI...", protesta.

Embora consiga treinar, no Centro de Estágios de Rio Maior, cidade onde reside, ainda que "em períodos horários bem definidos e reservados para não haver mais pessoas do que o espaço do ginásio permite", a judoca luso-cubana reduziu o tempo de treino, resumindo-o "a duas horas, três diárias", ou seja, metade do que era usual, lamentando também a falta de descanso inerente a um confinamento prolongado numa casa cheia.

"Quando falamos em descansar em casa, é bastante relativo. Em casa, uma pessoa, querendo ou não querendo, tem sempre alguma coisa para fazer. Quando estou fora, não tenho de estar preocupada com a limpeza da casa, com os cozinhados. Habitualmente, estou em hotéis, preocupada com o tempo de treino, descanso e recuperação", salienta.

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A medalhada de bronze da categoria -78kg dos Europeus de 2008 considera que a pandemia de covid-19 teve mais impacto na vida das mulheres, que no seu setor, o desporto, já estão mais condicionadas à partida, nomeadamente na questão da maternidade.

"Quando eu entrei, em 2007, na seleção, acho que não havia nenhuma ou havia poucas mães -- ou não era do meu conhecimento. O meu filho nasceu prematuro e com um quadro bastante complicado para tentar fazer uma vida que não fosse 100% direcionada a ele, mas, mesmo com as necessidades que tinha, decidi que isso não podia definir a minha vida, porque eu tinha os meus sonhos e ia tentar conciliar tudo", revela.

Hoje em dia, já há apoios, mas, ainda assim, Yahima Ramirez estima que, na luta pelos direitos das mulheres no desporto, "ainda há um longo caminho a percorrer". "Infelizmente", lamenta.

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Por Lusa
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