O judoca desceu ao inferno, vítima de uma doença mental (síndrome esquizo compulsiva), mas essa vivência serviu para o tornar mais forte. Está de regresso pelas Construções Norte-Sul.

RECORD: O que representa este regresso e como tudo começou?

CÉLIO DIAS – O judo faz parte importante daquilo que sou e estou muito contente por voltar aos tapetes. Tem um grande peso na minha vida. Comecei a praticar quando tinha 13 anos, por convite da mãe da Telma Monteiro para ir aos treinos das Construções Norte-Sul e, desde aí, nunca mais parei.

R: Depois de grandes resultados internacionais e da ida aos Jogos Olímpicos , veio uma fase negra. O que correu menos bem?

CD – Eu não estava preparado para perder. Fui ao estágio de Castelldefels [Espanha], estava em grande forma e pensei que a medalha no Rio’2016 era certa. Não soube lidar bem com a frustração de perder com um adversário muito menos cotado logo no primeiro combate. Custou-me muito. Seguiu-se um período muito complicado, porque tive um surto psicótico, perdi o contacto com a realidade e comecei a produzir sentimentos irreais.

R: Foi-lhe diagnosticada alguma doença mental?

CD – Tenho um síndrome esquizo compulsiva, do quadro da família da esquizofrenia. Depois de um período de depressão, tentei suicidar-me duas vezes, mas felizmente consegui superar e agora estou aqui para contar a minha história na primeira pessoa.

R: Como foi o tratamento?

CD – Quando tive o surto psicótico estive quatro dias na ala psiquiátrica do Garcia de Orta, numa situação de caso agudo. Depois tive de parar cerca de seis meses sem praticar, porque tomava medicação e esta dificultava os movimentos e as minhas reações. Tive de fazer uma paragem, com grande necessidade de contacto com a família e consegui recuperar e regressar em 2017 onde fui 9º no Mundial.

R: Mas depois apareceu um novo surto psicótico...

CD – Houve uma descontinuação na medicação, porque na segunda vez que estive internado em Carnaxide tratou-se uma depressão, pois o surto psicótico poderia ser pontual, mas apurou-se que eu sofro de uma doença mental. Provavelmente, vou ter de fazer o antipsicótico para o resto da minha vida.

R: E o que se passou para aqueles ataques pessoais contra tudo e contra todos nas redes sociais?

CD – Não tenho arrependimento. Eu naquele momento estava muito doente, revoltado e a precisar de ajuda. Aquela foi a minha maneira de chamar a atenção. Foi um momento menos positivo na minha vida, mas que de alguma forma faz parte do meu percurso. Aprendi mais acerca de mim mesmo. Há necessidades que tenho de respeitar, como seja estar mais tempo com a minha família. O judo, por vezes, dispersou-me.

R: Segundo consta encontraram-no perdido numa estrada?

CD – Completamente. Fui de férias para França com o treinador da Seleção, o Go Tsunoda. E na volta fiquei em Barcelona. Aí senti-me que estava a ser perseguido por alguém. E nessa perseguição senti necessidade de deitar as coisas para fora, porque pensava que andava a ser perseguido porque tinha descoberto um segredo: ‘As pessoas eram manipuladas.’

R: Um nível de consciência...

CD – Um nível de superconsciência, mas quem anda nessa onda acaba por se esquecer da realidade, que é muito objetiva.

R: Foi marginalizado?

CD – Houve grande capacidade de compreensão. Sinto grande apoio da Federação de Judo, dos amigos, das pessoas que me seguem nas redes sociais, algumas que também sofrem dos mesmos problemas mentais. As pessoas visadas pelos meus ataques perceberam que eu estava doente. Tudo fez parte de um processo de crescimento, por alguma razão esta doença manifestou-se nesta altura da minha vida e vou retirar a melhor lição, para continuar a crescer como pessoa.

R: Existem razões objetiva para o aparecimento da doença?

CD – Pode ter uma causa genética ou devido a situações na vida muito difíceis de aceitar. Fui criado num bairro social, sou homossexual, cresci a lutar em muitas fases da minha vida para conquistar os meus objetivos. Esta doença pode ter sido uma manifestação do culminar de um grande stress social.

R: Como é crescer num bairro social?

CD – Um grande desafio. Em jovem via pessoas a drogarem-se nas escadas dos prédios e tive um convite quando tinha 10 anos para experimentar. Havia grandes índices de criminalidade. Lembro-me de ser bastante novo e de haver rusgas, revistavam-me antes de ir para a escola. Foi uma aprendizagem. Felizmente Tenho uma família que sempre me apoiou e cuidou de mim.

R: Como tem sido essa relação?

CD – Tinha um mês de vida quando fui acolhido pela minha família adotiva e foi o melhor que me podia ter acontecido. Tenho uma estrelinha que me guia e essa estrelinha manifestou-se desde muito cedo porque eu podia ter sido marginalizado e isso não aconteceu. Os meus pais de acolhimento sempre me trataram muito bem. Os meus seis irmãos até brincam comigo, dizendo que sou o filho preferido. Somos muito unidos.

R: Como vai ser o futuro e como lidar com a doença?

CD –Tive uma fase negra, mas vou aproveitar para crescer. Estou consciente de tudo o que aconteceu, em paz com o passado e, acima de tudo, soube perdoar-me. Com dedicação é possível ter uma vida perfeitamente normal. A doença mental não tem de ser um estigma, poderia sofrer de asma ou de outros problemas crónicos graves que era a mesma coisa. Devemos saber lidar com as adversidades. Não olho esta doença como algo que me veio dificultar a vida, faz parte de mim e é algo com que tenho de viver para ser bem-sucedido. Estou numa nova fase, focado nos objetivos e na minha recuperação, voltando ao judo com a força que me caracteriza. Não houve ruturas nem perda de confiança. Pelo contrário, a minha doença aproximou-me das pessoas. Estou feliz por dar esta entrevista. Tudo tem uma razão.

Autor: Alexandre Reis