Pandemia e lesão levam Jorge Fernandes a deixar o judo

Judoca de 31 anos decide pendurar de vez o kimono

Largos meses sem competir e a dificuldade em voltar a pisar um 'tatami', acentuada por uma lesão, precipitaram a decisão de Jorge Fernandes em arrumar de vez o 'judogi' e deixar para trás o judo.

"Não sei o momento certo em que decidi, mas pesou ter falhado os Europeus de Praga [em novembro]. Foi uma consequência de vários motivos e senti, sobretudo após o primeiro confinamento, que estava aquém", justificou o ex-judoca, em entrevista à agência Lusa.

Aos 31 anos, Jorge Fernandes, habituado a competições nacionais e internacionais, viu a pandemia da covid-19 antecipar o final da carreira desportiva, sem uma despedida em casa e quando Portugal recebe já em abril os Europeus da modalidade.

"O adiamento dos Jogos Olímpicos deixou tudo mais claro. E, para 'ajudar à festa', senti que tinha perdido bastante, com o confinamento. É difícil trabalhar a componente do judo, sem fazer judo", explicou.

Para Jorge Fernandes, a paragem entre março do último ano e a retoma de alguma atividade em junho, com os estágios das seleções, pesou na dificuldade de recuperar fisicamente, uma vez que a sua se trata de uma modalidade de contacto.

"Não é para tirar mérito às outras modalidades, mas se calhar é mais fácil trabalhar algumas componentes no atletismo. A questão da falta de contacto foi bastante complicada, havia receio, até dos próprios atletas", admitiu.

Depois veio uma lesão e, mesmo com os Europeus de Lisboa a alguns meses de distância, em abril, a despedida ganhou forma.

"Gostava [de sair nos Europeus], mas há outros atletas que têm resultados tão bons ou melhores. Não queria ser mais um número. Sempre pensei que no dia em que decidisse parar era mesmo para parar, e não ter avanços e recuos", acrescentou.

A despedida do judoca coincide com a paragem de Nuno Saraiva, judoca da mesma categoria de peso (-73 kg), que competiu nos Jogos Olímpicos Rio2016.

"Era um adversário direto na minha categoria, somos amigos, mas a saída de um não tem a ver com a paragem de outro", adiantou Jorge Fernandes, que nas seleções coincidiu muitas vezes com Nuno Saraiva.

Com a decisão tomada, é tempo de olhar para o futuro, radicalmente diferente de uma vida no judo e quando as saídas profissionais ainda são escassas para um desportista, licenciado em Ciências do Desporto e pós-graduado em Gestão Desportiva.

De peso médio, o ex-judoca agarrou a oportunidade profissional que lhe surgiu, numa área muito diferente, a de manobrar maquinaria pesada em movimentação de terras, muito acima do 'peso' a que se habituou como atleta.

"O trabalho é ligado a uma das maiores cimenteiras do país, A oportunidade surgiu depois de muitas recusas. Ou porque já tinha 30 anos ou porque estava ligado ao desporto", frisou, explicando que é um problema com que muitos atletas se deparam.

Jorge Fernandes considera que uma saída profissional é muitas vezes 'travada' pela dificuldade do setor empresarial privado aceitar atletas em atividade, tornando "rara" a empresa que encare normalmente a situação.

"Sempre que enviei o currículo, o entrave era estar ligado ao desporto, foi uma realidade com que me debati", revelou o ex-judoca, que diz ter sido bem recebido no setor em que agora se encontra e do qual até gosta.

A possibilidade de vir a estar ligado ao judo e à formação académica que tem não está, no entanto, afastada, mas Jorge Fernandes encara agora a modalidade, que fez desde sempre, numa perspetiva diferente.

"É a área onde me especializei, toda a formação que fiz foi no judo e penso ter conhecimento para transmitir, mas também gosto de trabalhar onde estou e fui muito bem recebido", defendeu.

No judo, continua a manter a ligação à associação distrital e ao clube em Coimbra, e treina o judoca Djibril Iafa, da variante de judo adaptado, um dos atletas na qualificação para os Jogos Paralímpicos.

Para trás fica a competição, num percurso que lhe trouxe alguns resultados, nos quais destaca a subida ao pódio nos Jogos Europeus de Minsk, em 2019, com Portugal como vice-campeão europeu de equipas mistas.

"É a melhor memória que tenho, mas, curiosamente, também é a pior. Foi no último combate, em que fui sorteado, depois de perder para o 3-3, voltei a combater e perdi. o meu adversário [o russo Musa Mogushkov] usou a cabeça para evitar a projeção, o que seria ippon", explicou.

A despedida de Jorge Fernandes e a paragem de Nuno Saraiva surgem após um ano de pouca competição - retomada internacionalmente a partir de outubro -, mas é cedo para saber o real impacto da pandemia na modalidade.

"Só mais tarde vamos perceber, junto dos clubes, as consequências que toda esta situação teve nos atletas e nos clubes", disse à Lusa o presidente da Federação Portuguesa de Judo.

RPM // AMG

Lusa/Fim

Por Lusa

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