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Dois madeirenses no deserto

Dois madeirenses no deserto
Dois madeirenses no deserto • Foto: Isabel Trindade

Estou sentado junto ao meu jipe, computador nos joelhos, rodeado de crianças curiosas para verem como se escreve em português e como ficam nas fotos que a Isabel vai tirando. Não é uma situação agradável, é até incómoda quando pensamos que, na Europa, mesmo na mais pobre, poucos serão os da mesma idade que não sabem o que é uma game box, um tablet ou mesmo um smartphone. Mas aqui, em Chinguetti, a realidade é bem diferente.

Chegámos hoje, segunda-feira, a esta cidade da Mauritânia em pleno Festival das Cidades Antigas, o que a tornou num centro de atração para milhares de pessoas. O próprio Presidente da República veio assistir ao acontecimento e milhares de pessoas, vindas sabe-se lá de onde, aqui montaram uma feira enorme. Vendia-ase de tudo: tâmaras e doce das ditas cujas, artesanato (muito dele fabricado no vizinho Senegal), roupas, alfaias agrícolas, louças e até encontrámos um artesão que tinha inventado e feito um castelo de água, uma maquineta infernal que não percebemos para que serviria, mas que ele garantia ser um engenho extraordinário. Enfim...!

Foi por isso um fim de dia interessante, diferente e relaxante, pois tínhamos passado a manhã a resolver problemas em duas das viaturas de Os Tugas (já tinha dito que este era o nome da nossa equipa, não tinha?), que acusaram a dureza da etapa anterior. O azar acabou por tornar-se em sorte, pois como apenas nos foi possível começar a andar já passava da uma da tarde...optámos por deixar a pista e vir pelo estradão que liga Chinguetti a Atar.

E estava eu a escrevinhar estas linhas quando, de repente, comecei a ouvir o pessoal a cumprimentar um jovem vestido como um mauritano mas a falar português fluentemente. Quer dizer, com um ligeiro sotaque. Fui ver quem era. Não era um, eram dois. Um casalinho. O Ruben Gonçalves e a Carolina Fernandes. Ambos madeirenses, ambos a andar pela Mauritânia, ele há seis meses, ela há três semanas.

O Rúben é médico, já andou pela Turquia e pela Palestina, foi até à Alemanha para aprender a língua, fez o primeiro nível e como o segundo só começava dali a um mês...decidiu ir até Marrocos. Era para ficar um mês, já anda por aqui há meio ano.

A Carolina cansou-se da Psicologia que estudava em Salamanca e foi ter com o Rúben. E os dois por aqui andam. A pé, à boleia, como calha. Mochila às costas, tenda e a andarem de um lado para o outro a conhecerem gente. Nem um nem outro sabem bem como vai ser o futuro. Em princípio querem ficar por aqui. Gostam do país, das pessoas, que os recebem de braços abertos. O Rúben já sabe algo dos vários árabes, gosta da cultura, adora o deserto e quer melhorar o conhecimento da língua. A Carolina, bem, gosta do país, mas ainda está numa fase de indefinição em relação ao futuro.

Ambos são madeirenses, onde aliás se conheceram e como já há bastante tempo não contactam com a família...aproveitaram esta possibilidade para lhes dizer que estão bem. Recado dado, voltemos aos acontecimentos do Sahara Desert Challenge!

Falava do brutal tratamento que os carros (das motos e dos motards é melhor nem falar...) tinham levado na etapa anterior, a de domingo, entre Bou Lanouâr e Azougui. Se no dia anterior a «dureza» tinha sido o aguentar com as formalidades fronteiriças ao passar de Marrocos para a Mauritânia, isto é, horas de seca até todas as formalidades estarem cumpridas, quer de um lado, quer do outro e, depois, aquela terra de ninguém que separa os dois países e que continua a ser uma aventura divertida, os quase 500 quilómetros de domingo foram arrasadores.

Fez-se toda a pista que acompanha a linha do comboio que liga as minas de ferro de Zouérat ao porto de Nouadhibou (o maior e o mais lento comboio do mundo), atravessaram-se aldeias abandonadas, visitaram-se os monólitos de Ben Amira, o segundo maior do planeta, e o de Aicha mas sobretudo levou-se muita «tareia» na pista.

Muita pedra, muito piso tipo «folha de Flandres» a deixar os ossos todos fora do sítio e onde desapareceu (literalmente, desapareceu) o meu terceiro corta-corrente e onde como consequência se verificaram algumas avarias mais complicadas, como por exemplo desaparecerem duas «mudanças» numa viatura. Cruzou-se uma zona de dunas, de média dimensão, mas a exigir alguma técnica de condução e onde quem não baixasse a pressão dos pneus para a casa do 1 bar (o máximo 1.2) tinha garantido ficar enterrado na areia. E como a pista «intervalava» entre a areia e a pedra, foi um sucessivo enche-vaza-enche-vaza para evitar furos. Mas nem assim...

Foi, por conseguinte, um dia em que as máquinas foram muito castigadas, exigindo-se-lhes a motor e suspensões um trabalho desgastante: o primeiro tinha de manter regimes muito elevados, com óbvias subidas de temperaturas; às segundas um esforço de recuperação constante. Aos condutores e seus acompanhantes, uma atenção redobrada perante os imprevistos da pista (por exemplo, os bocados das travessas da linha de comboio enterrados na areia, com aqueles parafusos «pequeninos» de cabeça de fora) e um também importante esforço físico.

Não foi por isso de admirara que, à chegada, houvesse quem se atirasse de cabeça para dentro das tendas, sem sequer jantar. Sim, porque já era boa hora para jantar quando entrámos (fomos mais uma vez os últimos graças aquela nossa mania de ajudar toda a agente, incluindo aquela viatura da Organização cuja marca não refiro e cujo condutor também não) no acampamento.

Hoje, resolvidos os problemas, aproveitámos para um dia mais descansado. E aqui estamos, a tentar enviar para Lisboa estes linhas e a preparar-nos para uma etapa que de certeza não vai ser propriamente um passeio. Mas tambem não era isso que esperavamos que o Sahara Desert Challenge fosse.

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