«É uma honra poder tratar o senhor Carlos Sainz por tu»
João Ferreira, jovem talento do Rally, prepara prova em Marrocos antes do Dakar e recebeu Record num dia-a-dia de competição.
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Aos 25 anos, João Ferreira prepara-se para uma reta final de temporada com boas expectativas antes do Dakar'2025, prova mítica que inicia em janeiro e que marca a segunda presença do jovem piloto de Leiria nesta montra. Antes terá a partir deste fim-de-semana e até à próxima semana a realização do Rally Raid em Marrocos, mas a verdade é que os motores já começam a aquecer.
Em Marraquexe, João dará o pontapé de arranque à última prova do Campeonato do Mundo de Rally Raid, com várias etapas no horizonte. Desde dia 1 em solo marroquino, o jovem piloto prepara tudo ao pormenor e, começando pelo dia das verificações técnicas, Record acompanhou tal preparação. Ao volante do Mini JCW T1+ da X-Raid, tentará conseguir um bom resultado na categoria Ultimate, numa zona do globo onde conquistou uma vitória no ano transato, só que numa categoria distinta, no caso entre os SSV.
"É sempre bom termos ganho uma prova aqui no ano passado. A categoria não tem nada a ver, antes era muito menos exigente, e tenho conhecimento do terreno, apesar do deserto ser muito incerto. Há que ver cada dia com calma e cautela e avaliar todos os riscos nesse dia. A estratégia acaba por ser dia a dia", explica João Ferreira ao nosso jornal, enquanto os engenheiros afinam todos os pormenores no carro que também terá como navegador o português Filipe Palmeiro. No total, o Rally de Marrocos terá cinco etapas, compreendidas entre os dias 5 e 11 de outubro, com um percurso de 2.468 quilómetros nas dunas e rochas.
O barulho é bem audível, mas João mantém-se abstraído e focado na sua tarefa. Mesmo com tão tenra idade, disputa posições taco a taco com consagrados do desporto motorizado, tais como Carlos Sainz, vencedor do último Dakar e campeoníssimo na modalidade que começou como profissional em... 1980. Uma honra, assume o piloto luso.
"Era uma referência quando cresci a ver todo o terreno e continua a ser. O Carlos Sainz ganhou este ano o Dakar com 61 anos. Já tinha um respeito enorme por ele, pelo piloto que ele é, desde ralis ao desporto todo o terreno, e pelo que tem vindo a alcançar ao longo dos anos. Este ano, com a prova de Campeonato do Mundo em Portugal, tive a sorte de ser colega de equipa dele e conheci-o um bocadinho mais na intimidade. Para além de todo o desempenho nas corridas, conhecer verdadeiramente a pessoa que ele é... Às vezes passa a imagem de uma pessoa distante, mas é uma pessoa espectacular e super agradável de estar, super divertida. Troco algumas mensagens com ele e é uma honra poder tratar o senhor Carlos Sainz por tu", aponta, em pleno bivaque, onde é aprimorado o veículo com selo de Repsol, que possibilita que seja movido a combustível 100% renovável.
Na realidade, a azáfama que se vive na própria cidade de Marraquexe, com um caos até algo organizado nas ruas entre a população, contraria a tranquilidade do discurso do jovem piloto. "É verdade que o prólogo começa no domingo, mas já estou em Marrocos desde o dia 1. Portanto, tivemos alguns dias de testes em conjunto com a equipa. Temos sempre antes de qualquer prova. Aqui em Marrocos temos mais dias de teste, porque é um pouco mais exigente do que as corridas que temos em Portugal. A preparação acaba por ser muito física, estão aqui 34 ou 35 graus, muito calor, e dentro do carro, com o carro quente, as roupas e tudo temos facilmente 60º dentro do carro e temos de aguentar durante 4 horas de condução. Passa muito por um trabalho psicológico e físico. Estivemos uma semana a testar e acho que estamos bem preparados para a semana que aí vem", sublinha.
Conhecimento com foco no futuro
A prova que arranca domingo com o prólogo antes do início oficial já na segunda-feira acaba por ser um pequeno aquecimento tendo em vista o Dakar e João Ferreira não esconde isso mesmo. "Tenho a sorte de estar incorporado na X-Raid, que é uma equipa que tem 6 vitórias no Dakar. Não vejo equipa melhor para representar no Dakar'2025, numa equipa com muita experiência, muito 'know how' e portanto tenho a certeza que este conhecimento de todos os Dakar e vitórias vai ser importante no Dakar'2025", deixa claro o piloto da X-Raid, antes de traçar objetivos concretos para uma competição da dimensão do Dakar.
"Temos de ter sempre metas definidas, mas o que queria realmente era vencer o Dakar. Não é uma realidade em que esteja a pensar muito porque tive a primeira experiência contra pilotos que corriam quando eu nasci. O mais inteligente é entrarmos neste Dakar com a postura de querer evoluir e, quando acabar, logo veremos onde estaremos", confessa.
De resto, há que recordar que o próprio João encontra-se numa categoria distinta da qual estava inserido no ano anterior, um dado também relevante na hora de apontar previsões para a etapa em Marrocos, que marca o fim do Mundial de Rally Raid.
"Tive um processo de aprendizagem um pouco diferente. Normalmente começa-se T2, T3, T4 e T1. Eu passei para o T1, depois tive a oportunidade de ir ao Dakar com a Yamaha e fiz o T4, depois passei para o T4 no ano passado e agora vou ao Dakar com o T1. Tem sido um processo bastante bom, sinto-me bastante confortável com o carro e agora é altura de dar o passo para o deserto. A velocidade e peso do carro são maiores, portanto há que adaptar a condução a isso. O deserto também é muito traiçoeiro e exigente. Acontece tudo mais depressa. Espera-nos uma semana de aprendizagem para estarmos bem em janeiro", defende.
Ensinamentos que leva para a vida, tais como os que recebeu de Carlos Sainz bem recentemente, ainda em Portugal. "Tive a sorte de ter andado a testar com o Stéphane Peterhansel. Falei bastante com ele. Mas o Carlos [Sainz] foi a pessoa pela qual sempre tive mais respeito e agora ainda mais acrescido. Curiosamente na corrida em Portugal - ele fez 4.º lugar e eu fiz 2.º - deu-me vários conselhos e deu-me umas palavras. Não só para a competição mas também para a vida e são valores que irei ter para o resto da vida", assume.
Apoio familiar
Mesmo com 25 anos, e já na idade adulta, João Ferreira continua a ouvir com atenção os conselhos dos pais, aos quais deve também o percurso nos desportos motorizados.
"Sempre acompanhei o todo o terreno e os meus pais, desde os 5 anos, viam comigo. Depois no karting era um hobby e no todo o terreno. Em 2022/2023 vimos que podia ser mais profissional e apostámos nessa variante. Com 25 anos, ainda tenho de ter autorização deles para tomar decisões. não é uma vida fácil: tem muito trabalho, sacríficio, viagens, longe da família e amigos e estou contente pela decisão", aponta sobre o seu trajeto, no qual já se encontra a um nível alto, mesmo tendo em conta a idade face a outros rivais.
De recordar que, além do piloto de 25 anos, outros portugueses encontram-se em ação neste 25.º Rally de Marrocos, e são os seguintes:
Carros/Ultimate João Ferreira/Filipe Palmeiro (Mini T1+Diesel) - X-Raid Mini JCW Team
Challenger
Fausto Mota (Can-Am) - Can-Am Factory Team
Ricardo Porém/ Nuno Sousa (MMP Can-Am) - MMP Competition
Mário Franco/ Rui Franco (Yamaha YXZ 1000R Turbo) - Franco Sport
João Dias/ João Miranda (GRally OT3) - Santag Racing
Rui Carneiro (Taurus T3 Max) - GRally Team
Pedro Gonçalves/ Luís Engeitado (Yamaha YZR 1000R Turbo) - Franco Sport
Maria Gameiro/ José Marques (Yamaha YZR 1000R Turbo) - Franco Sport
SSV
Hélder Rodrigues/ Gonçalo Reis (Can-Am Maverick) - Old Friends Rally Team
Alexandre Pinto/ Bernardo Oliveira (Can-Am Maverick) - Old Friends Rally Team
José Óscar Nogueira/ Arcélio Couto (Can-Am Maverick) - Old Friends Rally Team
Francisco Guedes/ Rui Pita (Can-Am Maverick) - Santag Racing
Motos/ Rally
Sebastian Buhler (Hero 450 Rally) - Hero Motosports
Rui Gonçalves (Sherco 450 SEF Rally) - Sherco TVS Rally Factory Team
António Maio (Yamaha WR 450F Rally) - Yamaha Portugal
Jorge Brandão (KTM 450 Rally) - Old Friends Rally Team
Nuno Silva (KTM 450 Rally) - Old Friends Rally Team