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Márquez é só mais uma vítima do alucinado "Dottore" Rossi

Márquez é só mais uma vítima do alucinado "Dottore" Rossi
• Foto: EPA

Um dos bonecos criados por Valentino Rossi é "Il Dottore", alcunha pela qual também é conhecido o simpático e carismático italiano, nove vezes campeão em todas as categorias do motociclismo. "Il Dottore", o Doutor, uma caricatura do piloto, é retratado algumas vezes com ar alucinado, de estetoscópio na mão, pronto a atacar, numa promessa de arremedo ao enredo do livro de Robert Louis Stevenson, "O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde".

(Também) Por isso, é um pouco "estranho" que o Mundo tenha acordado no domingo tão espantado com um escândalo que de imediato sustentou novo ensaio sobre quedas de mitos, um dos temas que mais prende a atenção do ser humano, sempre ávido de informação dos famosos - e, como diz a máxima, não há notícias tão boas como as más notícias...

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Rossi, 36 anos, deu um pontapé na moto de Marc Márquez a 13 voltas do final da corrida do GP da Malásia, provocando a queda do espanhol da Honda, ficando à mercê de uma punição que veio comprometer a conquista do título, o seu 10.º - oitavo na classe principal.

Largando do último lugar da grelha de partida para a última corrida da temporada (GP da Comunidade Valenciana), quando apenas dispõe de sete pontos de vantagem sobre o seu companheiro de equipa na Yamaha, Jorge Lorenzo, o italiano paga um elevado, mas inteiramente justo, preço pelo pontapé na moto de Márquez.

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O último dos grandes campeões depois da retirada de Sébastien Loeb, do Mundial de ralis (WRC), e de Michael Schumacher, do Mundial de F1, arrisca a saída pela porta pequena, mesmo que não vá para a frente com a intenção de faltar à chamada em Valência, como anunciou. Na memória de todos, sobretudo dos mais jovens, para os quais continua a ser o modelo a seguir, fica a infame cena, para a qual não há tempo para fazer esquecer, como sucedeu no passado.

É que não é a primeira vez que Rossi se "pega" com um rival com um rival. Daí a estranheza pelo espanto do Mundo diante do sucedido em Sepang. Não se trata de desculpabilizar o italiano e sim de enquadrar a sua reação num contexto de guerra psicológica para com os rivais, arte em que era mestre e terá agora sido suplantado pelo pupilo Márquez.

De "pequenino"...

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Rossi manteve uma acesa rivalidade com o compatriota Max Biaggi, quando passou dos 250cc para os 500cc, em 2000, que se estendeu até que "Il Corsaro" abandonou o mundial de velocidade, após a temporada 2005, já então denominada MotoGP, quando o rival já somava cinco títulos.

Para a história fica a ultrapassagem no GP do Japão de 2001, em Suzuka, quando Rossi, em plena aceleração se voltou para mostrar o dedo do meio a Biaggi, que lhe dera uma cotovelada. A cena acabou retratada num quadro, com a imagem difundida através do site do "Doutor", no qual, durante muito tempo, nome e apelido do rival romano surgiam substituídos por "X". Longe das câmaras, Rossi terá esbofeteado Biaggi a caminho do pódio, após o GP da Catalunha de 2001...

Rossi foi ganhando força, à semelhança do personagem do livro de Stevenson, encontrando pelo caminho outro piloto que lhe fez frente, Sete Gibernau. O espanhol a quem a Honda entregou uma moto "igual" à do italiano incomodou bastante, mas foi um episódio fora de competição que fez estalar a polémica na pista.

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No GP do Qatar de 2004, Gibernau terá denunciado Rossi, que se transferira para a Yamaha, por ter mandando colocar borracha no lugar da grelha de onde iria largar. O resultado foi uma penalização que atirou o italiano para o último lugar. Os dois pilotos cortaram relações e Rossi nunca perdoou Gibernau.

Por isso, no GP de abertura da temporada 2005, em Jerez de la Frontera, circuito do país do rival, Rossi entrou a "matar" sobre Gibernau na última curva antes do final da corrida, atirando-o para a gravilha, arrebatando assim o triunfo, deixando a discussão sobre a legitimidade da manobra para fãs e comunicação social. No final, esticou a mão para o espanhol e este apertou-lha, dizendo depois: "As corridas são assim."

Casey Stoner chegou ao MotoGP pela porta da Honda em 2006, mas foi na equipa de fábrica da Ducati que se tornou num verdadeiro rival de Rossi em 2007, temporada na qual somou seis "pole positions" e 10 vitórias rumo ao título. No ano seguinte, no GP dos Estados Unidos, o australiano conheceu o lado impiedoso do italiano, que o ultrapassou no famoso "saca rolhas" de Laguna Seca, pressionando-o em direção à gravilha para conquistar o triunfo.

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No final da corrida norte-americana, Stoner usou uma frase que Márquez recuperou agora quando comentou o acidente na Malásia. "Perdi o respeito por um dos maiores pilotos da história do motociclismo", disse o australiano, que ainda batalhou com Rossi mais algumas vezes, destacando-se uma colisão no GP de Espanha (Jerez), em 2011, temporada na qual Stoner conquistaria o seu segundo título.

"Pelos vistos, a tua ambição é maior do que o teu talento", referiu Stoner na altura, apontando a génese do "problema": como qualquer um dos grandes campeões, Rossi faz tudo para vencer e foi assim também com o adversário seguinte, Jorge Lorenzo, com quem partilharia a equipa Yamaha entre 2008 e 2010.

De resto, foi mesmo nas garagens que se registou o incidente de maior importância entre o espanhol e o italiano, que mandou colocar uma barreira entre as duas boxes de forma a que a informação por si recolhida, no que toca a afinação da moto e escolhas de pneus, não passasse ao companheiro/adversário. A tensão só acabou com a saída de Rossi para a Ducati, após a temporada 2010.

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Desta vez foi demasiado longe com Márquez, trazendo à memória as manobras de Schumacher sobre Damon Hill (1994, em Adelaide), e Jacques Villeneuve (1997, em Jerez), no Mundial de F1, mas a fome por vitórias está no seu ADN, fazendo com que se transfigure quando está em pista, no tal arremedo à história d' "O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde".

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