Elisabete Jacinto enfrenta os riscos
"Minha senhora, há aí muita falta de jeito". Foi esta a frase que Elisabete Jacinto ouviu do seu instrutor de condução da primeira vez que tentou manobrar um camião, em outubro de 2002. Menos de três meses volvidos, estava a competir no Dakar. Quem supera este tipo de barreiras dificilmente resiste a um novo desafio e a Africa Eco Race 2010, que arranca dia 27, em Portimão, seduziu uma piloto desiludida com a mudança do maior rali todo-o-terreno para a América do Sul.
"A minha decisão de optar por esta prova deriva de ter ficado altamente desmotivada com o Dakar na Argentina. É como fazer o raide de Portalegre, só que com muitos mais quilómetros. O resto é igual", explica a portuguesa que conduz um camião MAN TGS secundada pelo navegador Álvaro Velhinho e o mecânico Marco Cochinho.
A Africa Eco Race vai do Algarve até Dakar, onde chega dia 10 de janeiro, mas não conseguiu atrair mais pilotos nacionais, que preferiram o Dakar Argentina-Chile ao desafio de uma uma prova menos mediática, mas que efetivamente percorre os míticos trilhos africanos. "No deserto encontramos soluções que à porta de casa, com todos os meios, não seriam possíveis. Ali, sozinha, cansada, desesperada, triste, frustrada, supero tudo. Isso dá um gozo enorme. Olhar para trás e pensar ‘bolas, eu consegui'. Ao longo da minha vida fui melhorando como pessoa, sendo essa a maior herança da minha carreira desportiva. É algo que não consigo na América Latina", justificou a piloto, de 45 anos.
"Corro os meus riscos, mas vou para esta prova de corpo e alma", concluiu Elisabete Jacinto, que no recente rali Shamrock venceu duas etapas, alimentando o sonho do pódio em África depois de ter visto o seu camião incendiar-se no Dakar sul-americano, em 2009.