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Continuamos a acampar, a dormir no chão e a conviver com o pó

A crónica da piloto portuguesa

O meu primeiro rali em Africa foi em 1998. Desde essa data tanta coisa mudou, a tecnologia evoluiu, mas o nosso modo de vida nos acampamentos mantém-se igual ao que sempre foi. Talvez a única grande diferença resida no facto de agora haver sempre casas de banho... Mas, não faz grande diferença pois o seu período de validade em cada dia é realmente muito curto. Na Mauritânia, por exemplo, constroem-se uns pequenos cubículos de madeira e enterra-se uma sanita na areia. O buraco não é muito profundo, rapidamente fica cheio e deixamos de conseguir aproximar-nos. É melhor procurar um lugar qualquer atrás de uma duna. E é o que toda a gente faz.

Em Marrocos as cabines de duche já são em plástico e a água, teoricamente, é quente. O problema é que as noites em Marrocos são demasiado frias. Quem se consegue despir com as temperaturas as rondar os zero graus? Sem a certeza absoluta de que a água seja quente ou que escorra em quantidade suficiente para mantermos o corpo quente? Eu sou a primeira a prescindir deles e opto pelo duche de toalhetes molhados no interior da minha tenda.

Continuamos assim a acampar, a dormir no chão todos os dias, a conviver bem com o pó e com as mãos sujas. Damos graças por não haver espelhos por perto e divertimo-nos com o mau aspeto de cada um: despenteados, sujos, enrugados!...

A vantagem é que agora os colchões de ar agora são um pouco melhores, mas continuamos a sentir as pedras que lhe ficam por baixo. As lanternas de cabeça dão mais luz e os sacos cama quentes ocupam menos espaço dentro do saco de viagem.

O nosso camião de assistência bem arrumado e muito organizado dá-nos muito conforto. Trazemos comida de casa, umas latinhas de conserva fabulosas fabricadas em Peniche, chá e café e outros mimos. Imaginem que desta vez trazemos até uns pacotinhos de azeite Oliveira da Serra porque chega a um ponto que já não podemos com os molhos franceses. O Jorge compra fruta e pão no caminho (mas nem sempre é possível)... E isto de poder comer quando chegamos ao fim da etapa é realmente muito bom.

É por isso que, para além da dureza das etapas e das dificuldades de condução, o que torna este rali tão especial é o facto de sermos confrontados com condições de vida péssimas que nos impedem de recuperar do cansaço e nos fazem desesperar... Mas, que põem à prova a nossa capacidade de distinguir o essencial do acessório e nos obrigam a estabelecer uma boa hierarquia de prioridades. Os que "sobrevivem" a tudo isto são, de facto, pessoas especiais! São as que aprendem a planear, a organizar...a prever o futuro e que sabem tomar as medidas certas no momento certo.
Por Elisabete Jacinto
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