Carlos Neves: para além do peso

Interesse começou por ser o “gordinho” do grupo de amigos. Agora é uma paixão...

Carlos Neves: para além do peso
Carlos Neves: para além do peso • Foto: PEDRO SIMÕES
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Que atire a primeira pedra quem nunca se questionou sobre o sumo. De facto, a olho nu, esta muito antiga modalidade (os primeiros esboços remontam há mais de mil anos, portanto, há que lhe dar o merecido respeito) vai contra um dos principais fatores que caracterizam um desportista comum: elegância e bom físico.

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Os lutadores de sumo não são, por norma, elegantes, mas há muito mais do que simples peso nesta importante arte marcial originária do Japão. Em Portugal, um canto bem distante do berço do sumo, existe perto de uma centena de praticantes.Carlos Neves é o mais representativo desse grupo e, em conversa com Record, deu uma aula sobre a filosofia deste desporto.

“O sumo começou por ser praticado entre os samurais. Mais tarde foi adaptado para um tipo mais espiritual e que serve para dignificar algo. Aliás, no Japão é muito natural ainda hoje fazerem-se torneios para angariar fundos após catástrofes naturais”, declara Carlos Neves, vigilante privado de profissão e amante do sumo. Terá uma coisa levado à outra? “Bom, não necessariamente. Se bem que os meus conhecimentos de sumo possam ser úteis para imobilizar alguém que se esteja a portar mal. Mas apenas isso.”

Com efeito, Carlos Neves é, espiritualmente falando, a antítese do seu tamanho: uma pessoa calma e que fala do sumo com uma paixão de quem deseja fazer algo pela modalidade em Portugal.

Aliado do xintoísmo – corrente filosófica e religiosa tradicional no Japão –, o sumo combina a espiritualidade com a pureza de um combate entre seres humanos desarmados. A ideia é mesmo essa: usar o corpo para derrubar o adversário.

O “forte”

Carlos Neves praticou futebol e voleibol, desportos coletivos onde não obteve a satisfação que procurava. A partir daí encontrou-se nas artes marciais e o sumo apareceu por brincadeira. Uma graça que, provavelmente, o cidadão comum já fez: o mais gordinho do grupo de amigos tem sempre boas possibilidades de, um dia, vir a ser lutador de sumo. O engraçado é que foi mesmo assim que o desporto lhe apareceu à frente:

“Os meus amigos diziam-me: ‘Eh pá!, tu, como és assim um bocadinho forte, podias era tentar o sumo’. Portanto, certo dia, comecei a investigar, mas como um leigo qualquer que vê umas coisas na internet ou um combate na televisão. Foi quando entrei em contacto com o mestre Jaime Pereira, precursor da modalidade em Portugal, que teve início por cá em 1996.”

Carlos começou a praticar em 1999, embora aí a meio gás, pois só podia treinar-se aos sábados.Como vive na Marinha Grande, precisava ir a Lisboa todas as semanas. Só que quem corre por gosto não cansa, o esforço valeu a pena. Agora é um atleta admirado internacionalmente e começa a colher também os frutos da sua persistência no nosso país, dado o interesse cada vez maior do público na modalidade.

Lá fora

A primeira vez que Carlos foi representar a Seleção num torneio internacional foi em 2004, num Campeonato do Mundo. Essa acabou também por ser a última ocasião em que uma equipa nacional se fez representar internacionalmente. A razão? Falta de verbas da maior parte dos atletas, que têm de suportar todos os custos quando vão competir fora de portas.

Carlos, claro está, presença assídua nos Europeus e Mundiais, é a exceção e lamenta não estar mais vezes acompanhado nos doyho’s deste Mundo fora: “Faltam apoios. Nem é tanto uma questão de dinheiro.Às vezes, um telefonema ou outro tipo de contacto pode ajudar as modalidades a crescerem. É esta falta de vontade que atrasa o desenvolvimento.”

Quanto a resultados, estes são animadores. Ainda este ano, chegou às meias-finais do Mundial e aos oitavos-de-final do Europeu: “Por norma, luto por ficar entre os 16 primeiros. No Campeonato do Mundo fiquei mesmo um pouco mais adiante. O que foi bom, claro.”

A nível interno, janeiro marcará um novo virar de página. Até aqui, o campeão decidia-se de forma oficiosa nos torneios realizados entre as diferentes escolas. A partir do próximo ano a Federação começará a organizar o campeonato nacional e o sumo em Portugal dará um passo de gigante como... os próprios lutadores? “Espero que sim. Mas é preciso dizer que também há pesos-pluma no sumo. Nem todos são grandes como eu”. Este foi o convite para um combate...

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