Luzes, câmara e ação

"Sempre me seduziu a parte técnica do meio audiovisual", conta o atleta, para quem "a ginástica é negligenciada"...

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A chegada à CM TV acontece todos os dias a horas diferentes. Câmaras, microfones e tripés enchem o porta-bagagens dos carros brancos e vermelhos do Correio da Manhã. Os trabalhos variam consoante a agenda e no regresso à redação, depois de descarregadas as imagens, prepara-se, de novo, o material, para o próximo trabalho. Este é o dia-a-dia de André Lico, repórter de imagem e bicampeão do Mundo de duplo-mini trampolim. “Em 2010 entrei para a Etic e agora estou a trabalhar. Este é o meu primeiro emprego a sério. Trabalho várias horas e não sobram muitas para treinar, mas estou a tentar conciliar”, afirma a Record o ginasta de 24 anos que se prepara para os World Games, prova que se realiza em Cali, na Colômbia, no final do mês.

Ser profissional de imagem foi uma escolha que André teve de fazer. A falta de apoios à modalidade que pratica desde criança fê-lo mudar de ideias quanto àquilo que queria para o seu futuro. “Sempre me seduziu a parte técnica do meio audiovisual”, conta o atleta, para quem “a ginástica é negligenciada”. “A nossa modalidade não é reconhecida, nem tem qualquer tipo de patrocínios”, acrescenta.

Na cabeça de André Lico esteva sempre a ginástica. “Só via trampolins à frente”, recorda. E nas aulas tinha um tique. “Com uma caneta começava a fazer saltos e os professores chamavam-me à atenção.”

Em 2009, André, que então estudava Hotelaria, na Escola de Turismo do Estoril, acabou por desistir do curso. “Não era aquilo que eu gostava. O meu objetivo foi sempre ser o melhor. E em 2009 finalmente consegui!”, relata o atleta que subiu ao primeiro lugar do pódio no Mundial, aos 20 anos, igualando o resultado do irmão, Nuno Lico. Um ano mais tarde repetiu o feito.

O desportista do Lisboa Ginásio Clube (LGC) e os treinadores tentam adaptar-se aos horários de trabalho do operador de câmara. “Os treinos têm de ser geridos com a parte profissional do André”, afirma um dos técnicos, Carlos Nobre. “É necessário perceber quando é que ele está mais cansado e ajustar os treinos para que consigamos retirar maior rendimento”, continua o professor de Educação Física. “O André tem características que nunca mais vamos encontrar num atleta.”

“Ele é alto e fica esteticamente bonito a saltar. Não precisa de se esforçar muito para ter uma linha bonita no ar”, concorda o outro treinador, Luís Nunes. “Mas tem de começar a pensar no mercado de trabalho e na vida dele. Se me disser que não tem como continuar, quem sou eu para lhe dizer alguma coisa? A vida de ginasta não tem retorno. Ele não pode dar-se ao luxo de continuar só para ir a Campeonatos do Mundo e ganhar medalhas”, ressalva o técnico que o vai acompanhar no Jogos do Mundo, Carlos Nobre.

Início

André Filipe Rodrigues Lico iniciou-se na ginástica aos 3 anos, pelo Sporting Clube de Portugal. Luís Nunes e Carlos Nobre, treinadores da altura, mudaram-se para o Lisboa Ginásio Clube e trouxeram alguns atletas, entre eles estava André Lico, então com 9 anos.

A partir daí, a prática dos trampolins começou a ser a base dos treinos, mas depressa perceberam que o duplo-mini trampolim era o aparelho mais indicado para aquele que viria a ser, por duas vezes consecutivas, campeão do Mundo. A sua carreira de desportiva foi feita ao lado destes treinadores e sempre a representar o LGC. Começou a ser chamado à Seleção em juniores e no Europeu de sincronizado alcançou o 5.º lugar, melhor resultado português até ao momento na prova...

Elite do desporto nos World Games

De 4 em 4 anos realizam-se os World Games, os Jogos Olímpicos das modalidades não olímpicas. Este ano, os Jogos Mundiais vão decorrer entre 25 deste mês e 4 de agosto, na cidade de Cali, na Colômbia. Em prova vão estar 37 atletas portugueses de seis modalidades amadoras: ginástica, dança desportiva, duatlo, canoagem, corfebol e patinagem. A Confederação do Desporto, presidida por Carlos Cardoso, ficou com a coordenação da missão. Uma prova internacional que envolve 120 países, 36 modalidades (5 delas convidadas) e cerca de 4 mil desportistas. Na última edição, em Taiwan, Portugal trouxe duas medalhas de prata, ganhas por André Lico, no duplo-mini trampolim, e pela seleção de râguebi de sevens.

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