Um sonho nas luvas de Farid

Jovem de 16 anos só precisou de 5 meses para mostrar o que valia nos combates...

Um sonho nas luvas de Farid
Um sonho nas luvas de Farid • Foto: vítor chi
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Entre Cabul e o Rio de Janeiro são mais de 13 mil quilómetros. Uma distância ainda assim pequena para os sonhos de Farid Walizadeh, 16 anos, campeão nacional de cadetes em boxe e um dos 17 jovens que vivem no Centro de Acolhimento para Crianças Refugiadas, em Lisboa. Ser campeão nacional não surpreendeu Farid, que bateu tudo e todos com apenas 5 meses de treino. E por isso, o jovem refugiado quer mais. Quer estar nos Jogos Olímpicos em 2016.

Nascido em 1997, a norte da capital do Afeganistão, sofreu desde cedo as consequências de viver num país fustigado pelas guerras étnicas e religiosas. Farid vem de uma família hazara, etnia perseguida pela maioria sunita. “Os talibãs estão sempre em guerra connosco”, conta. Com apenas 1 ano, viu-se separado da mãe. Os pais fogem e, temendo pela sua segurança, optam por deixar o pequeno para trás. Depois de passar por uma família de adoção, Farid vai viver aos 8 anos com um tio, que pouco tempo depois o entrega a um passador para que este o coloque fora de um país em constante convulsão.

Começa então a longa caminhada. “Atravessei o Afeganistão, passei pelo Paquistão, Irão, até chegar à Turquia”, relembra Farid. Milhares de quilómetros onde conheceu a fome, o frio, o perigo constante. Viajando em grupo por entre as montanhas, Farid viu muitos partir. “Alguns voltaram para o país, outros morreram... Era a única criança do grupo e fui o único a chegar à Europa”, relembra.

Em Istambul, o menino afegão permanece durante seis anos. Com medo da solidão, chega a pedir à polícia para o levar quando numa rusga ao apartamento em que vivia com outros expatriados é o único que não é detido. Colocado num centro de acolhimento, é lá que os desportos de combate entram na sua vida. “Tinha um amigo que fazia kung fu no Afeganistão. Ensinou-me um pouco e gostei. Além disso adorava filmes do Jackie Chan!”, diz Farid, que também praticou taekwondo na Turquia.

Nova vida

Quando Portugal o acolheu, a 28 de dezembro de 2012, Farid pediu apenas duas coisas: escola e boxe. O Clube Desportivo de Arroios recebeu-o sem contrapartidas e passado cinco meses Farid pagou, ao conquistar o título de campeão nacional de cadetes, na categoria de -57kg. “O que me faz ser um bom boxeur? A minha vida”, diz Farid sem qualquer sentimentalismo. “Não me quero esquecer do que passei”, continua, falando como um adulto e frisando a importância da mente para vencer: “Se não fores inteligente não sabes o que estás a fazer”.

De Portugal só conhecia... CR7

Se é certo que chegar aos Jogos Olímpicos do Rio é o maior objetivo de Farid, há algo muito mais importante na vida do jovem: a família. Já em Portugal, Farid conseguiu entrar em contacto com a mãe e os irmãos, três rapazes e duas raparigas.

“Falo com eles uma vez por semana. A minha família é o mais importante, com eles cá tudo será diferente”, conta. O reagrupamento familiar é possível, mas “é um processo demorado, que tem de seguir os trâmites legais”, explica Dora Estoura, assistente social coordenadora para a área dos menores do Conselho Português para os Refugiados. Lisboa espera os documentos que provem a origem do rapaz, para assim dar luz verde ao encontro que Farid espera com impaciência.

Apesar da falta que a família lhe faz, Farid sente-se bem em Portugal, ainda que há um ano pouco soubesse sobre o nosso país. “Não sabia quase nada de Portugal. Só Cristiano Ronaldo”, confessa o jovem, que admite que o internacional português é um tema recorrente nas conversas com a família. “Os meus irmãos mais novos têm 9 e 10 anos e gostam muito dele. Perguntam-me sempre se tenho fotografias com ele. Tenho de lhes explicar que o Ronaldo vive em Espanha e não em Portugal”, graceja.

Quando não está a treinar-se ou na escola, Farid gosta de ver televisão. Mas dispensa desporto. “Gosto mais de ver filmes de ação”. Talvez porque a vida o tenha tornado duro, quando Farid tinha ainda idade para brincar.

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