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«A montanha é como a vida e os erros pagam-se caros»

JOÃO GRACIA ENCONTRA-SE COM RECORD PARA PROJETAR EMOÇÕES

«A montanha é como a vida e os erros pagam-se caros»
«A montanha é como a vida e os erros pagam-se caros» • Foto: MIGUEL BARREIRA

RECORD - Quando era pequeno a que é que subia? Às árvores?
JOÃO GARCIA - Também. Também subia às árvores. Mas o que me fascinava mais eram paredes verticais, dos caboucos e obras congeladas, isto logo a seguir ao 25 de Abril. Era um desafio a rapaziada medir forças e ver quem conseguia fazer coisas mais atrevidas.

R - E já nessa altura se destacava?
JG - Acho que fazia parte de um grupo em que me destacava, não só nas escaladas como na ousadia de ir para a piscina dos Olivais a meio da noite, saltar o muro. Eram desafios. Mas essa coisa de me desafiar na vertical fez mais sentido e, por isso, fui sempre à procura de mais informação.

R - Mas essa não era uma brincadeira comum...
JG - Acho que também era, porque os outros também o faziam. Da mesma forma que eu também jogava à bola e estragava as calças com verde nos joelhos. E eram as bicicletas, os carrinhos de rolamentos, eram as guerras com fisgas. Uma série de coisas que também contemplava a subida às árvores e paredes. Só que depois quis mais...

R - E levou muitas palmadas?
JG - Dos pais? Como todos os outros. Eram educações diferentes de hoje em dia. Não vou dizer que eram melhores ou piores. Se as levei é porque merecia. Não era um miúdo melhor nem pior do que os outros.

R - Como é que a educação moldou o seu caráter?
JG - O importante é termos os pés bem assentes na terra, é possível fazer certas coisas mas também é importante a forma como as fazemos. E, neste caso, quando uma pessoa sobe montanhas tão grandes, tão perigosas, em que existem tantos elementos que nós não controlamos, o afirmar que vou fazer aquilo não é sensato. Nós vamos tentar. Dar o nosso melhor e regressar bem. É diferente. Mas acho que sim, que a educação me ajudou, de alguma forma, a ter noção de que sonhar este tipo de coisas não era descabido. Que é possível.

R - Há alguma frase dos seus pais que o tenha marcado?
JG - Não. Assim de repente não me lembro. Há aquelas frases tipo, da família, de que tudo aquilo que de mau nos acontece é por nossa culpa. Gostamos de culpar os outros, há sempre uma desculpa e o português, cada vez mais, arranja desculpas para tudo: se chega atrasado é por causa do trânsito, mas nunca ninguém pensa em levantar-se um pouco mais cedo para evitar estes atrasos. Temos a mania de sacudir sempre a água do nosso capote. Mas essa é uma frase que retive da minha família: de que tudo de mau que acontece é por nossa culpa. Veja o caso do Evereste, em 1999: as coisas correram mal porque nós cometemos erros. Aliás, cometemos vários erros. Há erros que, de uma forma isolada, são perdoáveis. Mas outros que, todos juntos, potenciam consequências catastróficas. E eu tive essa noção: Evereste, a grande expedição, foi a pior expedição da minha vida.

R - A montanha é um pouco como a vida? Errar para aprender?
JG - É, mas este tipo de erros não são nada aconselháveis. Pagam-se caro. Tudo bem, às vezes uns sustos, mas esse tipo de erros, com consequências irreversíveis, não desejo a ninguém.

R - Quais foram os seus primeiros desafios ainda em criança e adolescente?
JG - Os primeiros desejos de desafios passavam por ir acampar. O primeiro acampamento com os escuteiros foi uma coisa marcante. E, depois, uma viagem à Serra da Estrela, sozinho, de bicicleta, convencer os pais, preparar tudo aquilo. Dá-me ideia de que na altura era mais empolgante do que agora, para preparar a próxima expedição ao Annapurna. Aquilo era uma excitação tal que não dormia. E depois o ir lá e descobrir gente com a mesma sintonia, com a mesma sensibilidade para este tipo de atividade, como eu. Tive vários pontos marcantes na minha vida, a primeira vez que subi ao Monte Branco, perceber que só atinge o topo quem se esforça, não há vícios, não é quem tem o melhor equipamento. Aqui, só mesmo quem se esforça é que chega lá em cima. E isso para mim sempre fez sentido. Houve uma série de momentos na minha vida, neste meu crescimento, sempre no meio das montanhas, que me iam reforçando a ideia de que sim, de que se calhar fazia todo o sentido continuar neste caminho.

R - O que acha que, numa determinada fase, motivou essa determinação, essa permanente vontade de enfrentar desafios?
JG - Vamos lá ver: eu acho que sou como os outros! Há uns que são mais virados para o futebol, há outros que têm maior vocação para não fazer nada de jeito, mas sou como os outros. Agora, eu tive sempre esta ambição de me superar a mim próprio, em desafios que ao início me pareciam inacessíveis. Eu dizia: não é possível, não é possível. Então é isso mesmo que quero tentar. As tarefas fáceis não me seduzem. Há pessoas que se calhar estão desejosas de mudar de emprego, que talvez gostassem de algo mais suave, como picar cartões ou encher balões. Para mim, isso seria uma monotonia, um tédio, um tempo mal gasto. Quando uma pessoa chegar a velhote, vai fazer um balanço e perguntar: mas o que é que eu fiz da minha vida? Que utilidade? Nós, quando nos apagamos, quando vamos desta para melhor, só cá fica aquilo que de bom nós fizemos. É o que fica na memória das pessoas. Acho isso importantíssimo.

R - Procura viver a vida de uma forma intensa?
JG - Não é tão intensa como isso. Aquilo que eu faço é que tem de ter importância. Não sou uma pessoa que tem de andar a 200 à hora, todos os dias.

R - Abomina a futilidade, é isso?
JG - Sim. Não sou uma pessoa que vá em carneiradas, isso é verdade. Talvez tenha uma personalidade forte, não sei. Mas para essa coisa de ir em carneirada - porque todos vão e eu também tenho de ir - não contem comigo. A dada altura da minha vida, a rapaziada ia toda para o futebol e eu não ia. Preferia ficar no triatlo. Inconscientemente, já sabia que, de alguma forma, aquilo iria contribuir para a minha capacidade de endurance, que hoje em dia, felizmente, é uma das chaves do meu sucesso.

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