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As 13 vitórias em discurso direto

JOÃO GARCIA QUER ALCANÇAR O 14.º CUME ACIMA DE 8.000 METROS

1993 - CHO-OYO, 8.201 m 

Escorregadela quase fatal

"Quando entrei na expedição, mal sabia que não íamos tentar chegar ao cume do Cho Oyu pela via normal. O objetivo era tentar terminar uma via que uma expedição polaca tinha começado há uns anos e que nunca tinha sido feita na íntegra. (...) Os polacos que tinham começado a abrir aquela via tinham colocado cordas verticais fixas em grande parte do caminho. (...) Foi graças a esse trabalho que consegui fazer esta via. Aliás, se não fosse isso não estaria hoje aqui, pois a certa altura, no caminho para o cume, escorreguei na neve, já demasiado derretida, caí e fiquei pendurado num precipício, seguro apenas por uma corda de seis milímetros de espessura."

In "A mais alta solidão"

1994 - Daulaghiri, 8.167 m

Instinto de sobrevivência

"Aí tive umas das primeiras experiências de perda de conhecimento, por causa do ar rarefeito e no cansaço extremo. A certa altura, durante a subida, senti-me desfalecer e baixei-me. Tive sangue frio suficiente para enterrar o piolet na neve e passei a corda à volta do pulso. Não sei quanto tempo fiquei assim, mas quando acordei percebi que só estava seguro pelo pulso. Era também uma questão de má aclimatação. Por causa disso adiei a subida ao cume. Era suposto ir com dois italianos, mas acabei por ir apenas na segunda leva."

In "A mais alta solidão"

1999 - Evereste 8.848 m

Triunfo com sabor a derrota

"Devo ter andado por ali a vaguear duas horas. Foi confuso. Não tinha a certeza absoluta de ter chegado ao cume, porque nunca mais encontrava o tripé, um tripé que tinha sido deixado por uma expedição chinesa e aparecia em todas as fotografias que tinha visto do cimo do Evereste. E o Pascal não chegava. Andei de um lado para o outro. Subi e desci, devagar, fui até às elevações mais próximas. Por fim lá me convenci que sempre era ali. Tinha chegado ao ponto mais alto do Mundo. Sentei-me, olhei em volta e fiquei ali, ofegante, a tentar respirar. Do lado de onde tinha vindo, viam-se apenas as marcas dos meus passos na neve. Do Pascal nada, ainda. (...) Por fim, decidi descer. Levantei-me, comecei a fazer o caminho de regresso. E ao fim de alguns metros vi o Pascal. Vinha a subir, muito devagar. Quando nos encontrámos disse-lhe que tínhamos de voltar para baixo, mas ele queria ir também ao cume e convenceu-me a ir lá acima. (...) Ainda estivemos algum tempo lá em cima. Tirámos as máquinas das mochilas, forçámos algumas poses, tirámos fotografias um ao outro. Foi a última vez que estivemos juntos. (...) Sabia que a vitória não é ter de telefonar à Nathalie, a dizer-lhe porque é que não vai voltar a ver o Pascal. Sabia que a vitória não é passar 92 dias num hospital, a olhar para as mãos e a despedir-me de parte dos meus dedos."

In "A mais alta solidão"

2001 - Gasherbrum II, 8.036 m

Em memória da amizade

"Às 12h10 atinjo finalmente o cume. O Jean-Luc chega 15 minutos depois. Comunicamos via rádio com os nossos companheiros e partilhamos com eles este momento de alegria, um momento em que os nossos pensamentos vão também para o Jean-François e para o Pascal Debrouwer, a quem dedicamos esta ‘vitória'. (...) Quanto a mim, nunca me senti melhor. Depois do Evereste, foi das melhores recompensas que tive e um reforço da minha determinação. É mesmo isto que faz sentido para mim."

In "Mais além - depois do Evereste"

2004 - Gasherbrum I,  8.068 m

"Sensação única"

"Iniciamos então a última caminhada. Antes do cume ainda temos um obstáculo, uma zona que tem uns ‘séracs' enormes a barrar o caminho. É uma visão desanimadora, mas quando contornamos essa dificuldade já vemos o cume, a uns 100 metros de distância. Chego lá acima pelas 12 horas do dia 26 de Julho. É um cume espetacular. Vemos o K2, o Masherbrum, os Gasherbrum, numa panorâmica que abrange a China, a Índia e o Paquistão. Um privilégio, uma sensação única."

In "Mais além - depois do Evereste"

2005 - Lhotse 8.516 m

Pascal na mente

"Por três ou quatro vezes pensei dar meia volta, mas depois reconsiderei e segui para cima, acho mesmo que só por casmurrice é que continuei. (...) Não me sai da ideia a lembrança do Pascal. Quando vim para o Lhotse, a Nathalie tinha-me enviado uma mensagem: ‘Se o vires por aí, diz-lhe que o amamos muito'. Estas palavras ocorrem-me repetidamente, naquela confusão de pensamentos e de impulsos em que me obrigo a avançar. (...) O caminho, felizmente, era fácil de perceber, balizado pelas cordas e também por garrafas de oxigénio abandonadas. Chego lá acima, finalmente. (...) Tirei uma fotografia (...) estiquei o braço e disparei. Apresso-me a dar meia volta, para descer destas altitudes mortíferas."

In "Mais além - depois do Evereste"

2006 - Kangchenjunga, 8.586 m

Um recorde do Mundo

"Desta expedição tiro duas conclusões: nunca devemos abandonar os nossos e, por isso, dedico este êxito ao Tozé Coelho, que teve de ficar pelo caminho devido à apendicite; por outro lado, vejo que a vida é feita da força que nos faz lutar pelos nossos objetivos até ao fim. (...) Ninguém acreditava que fosse possível, mas os portugueses acreditam sempre. Para mim, chegar ao cume do Kangchenjunga é como se tivesse batido um recorde do Mundo."

In "Record Dez"

2006 - Shisha Pangma, 8.013 m

Morte de Bruno Carvalho

(...) Quando era suposto termos atingido o nosso objetivo e regressarmos em segurança, não posso dizer que a expedição foi bem sucedida. (...) O Bruno Carvalho obedeceu ao plano, estava dentro dos ‘timings' definidos, mas foi vítima de um trágico acidente, já não está entre nós. (...) Ele é um lutador. Lutou tanto como nós, mas teve azar. (...) Levámos dez horas a subir e quatro a descer, não era suposto ter acontecido esta tragédia."

In "Record Dez"

2007 - K2, 8.611 m
Duas desgraças

"Esta montanha foi dura por diversos fatores, físicos e psicológicos. Mas se calhar era mesmo disso que eu vinha à procura... Fisicamente, não é por ser a segunda montanha do Mundo que a torna mais difícil, mas por ter vertentes inclinadas, perigosas, com queda de pedras, e na fase final por ter inclinações de gelo na ordem dos 70 graus... uma monstruosidade comparativamente com outras montanhas que escalei. Psicologicamente, foi também difícil, pois no dia do cume aconteceram duas desgraças... não tenho outra forma de qualificar acidentes mortais..."

In "Record"

2008 - Makalu, 8.463 m

"O meu 10.º cume"

"Eram 11 horas e estava sozinho, olhei à volta e não vi nada mais alto, encontrava-me no cume do Makalu. (...) É o meu 10.º cume de mais de 8.000 metros, mas mesmo assim não me deixo comover, pois assola-me um sentimento de ter completado meio caminho apenas e preocupo-me agora com a descida."

In "Record"

2008 - Broad Peak, 8.047 m

Dois num ano

"Esta conquista de um cume com mais de 8.000 metros foi a minha segunda este ano. Apenas dois meses depois de estar no cume do Makalu, no Nepal, e logo na segunda semana de expedição consegui o objetivo que ambicionava: conquistar a minha 11.ª montanha com mais de 8.000 metros."

In "Record"

2009 - Manaslu, 8.163 m
Escola de paciência

"(...) Escalar estas montanhas é uma escola de paciência. É justamente esta paciência aliada à perseverança que acaba por funcionar. Eu acredito que quando trabalhamos arduamente mais cedo ou mais tarde acabamos por ser recompensados e foi justamente o que aconteceu. Pena que os meus companheiros de expedição não acreditem nestas palavras."

In Record

2009  - Nanga Parbat, 8.125 m

Chegada impressionante

"(...) Depois de atravessarmos planos de neve, entrámos num misto de neve e rocha, que retoma a vertical na fase final de ascensão, até um ponto onde não se pode subir mais. A chegada ao cume foi impressionante, como o é sempre num cume que não conhecemos... e também foi mais ventosa do que esperava. (...) No dia seguinte as notícias não são as melhores: um austríaco está desaparecido e uma escaladora coreana, Mi-Sun, morre numa queda... Triste episódio, este, do Nanga Parbat, que continua a fazer jus à sua fama de montanha assassina..."

In "Record"

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