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«Sabe bem ir para um lugar onde ninguém nos conhece»

JOÃO GARCIA CONSIDERA A SOLIDÃO QUE A MONTANHA LHE PROPORCIONA UM BEM PRECIOSO

Record - Como é que gere os momentos de solidão numa expedição?
João Garcia- A solidão é uma coisa boa. Não gostava de viver sozinho para o resto da minha vida. Nem pensar. Mas às vezes - e não querendo contradizer-me - vivemos de forma tão intensa (como um telefone que toca algumas 20 vezes por dia, mais 20 mails, os bons dias na rua, uma série de perguntas, algumas delas repetitivas) que sabe bem, uma ou duas vezes por ano, ir para um sítio onde ninguém nos incomode, onde estamos ali verdadeiramente só com nós próprios. É quase um luxo barra necessidade, toda a gente tem de se reencontrar, meter as ideias no lugar, perceber, sem sobrecargas e sem distrações, o que é essencial na nossa vida. Isso é ótimo. É como uma lufada de ar fresco. Ir ao Nepal, ver como aquela gente vive, outras civilizações, é extraordinário para darmos valor, quando regressamos, a tudo quanto nós temos de bom. E já não damos valor...

R - Todas estas viagens e contactos transformaram-no num homem mais sensível?
JG - A sensibilidade é uma coisa relativa. Há quem diga que eu sou muito bruto. Tudo bem. Acho que sim, mas até dentro dessa brutalidade sou capaz de ser uma pessoa também sensível. Gosto muito do Nepal, um país onde já fui mais de 30 vezes. Se contabilizar um mês por cada ida - e há viagens que são de dois meses, como é o caso desta - acabei de passar, de forma faseada, mais de três anos da minha vida no Nepal. E é um país onde não me canso de regressar. Mas se estiver lá demasiado tempo também já fico cansado.

R - Quais foram as verdadeiras lições de vida que o país, um dos mais pobres do Mundo, lhe proporcionou?
JG - Não sei. Se calhar é na simplicidade que se consegue encontrar um caminho mais fácil para a felicidade. É uma obrigação que nós temos enquanto seres vivos: sermos felizes, passarmos da melhor forma possível o pouco tempo que andamos por cá. E vemos aquelas aldeias, as pessoas com um trapinho à frente e outro atrás, aquela palhoça, não têm muito mais do que isso, não têm carros, nem contas chorudas, não têm nada disso. E garanto-lhe que os sorrisos deles conseguem ser bem maiores dos que os milionários que a gente vê por aí a andar nas autoestradas. É uma lição tão simples como esta e que tem muito a ver com uma frase que gosto de utilizar, que é não complicar as coisas simples.

R - Há algum momento mais marcante?
JG - Não sei. No Nepal não há pressa, a vida vive-se de forma calma. Sou capaz de rever um amigo que larga o seu trabalho para, demoradamente, beber um chá comigo. É bom ver isso e reconheço que sinto alguma inveja: poder ir beber um chá com um amigo quando aqui já não o conseguimos fazer. A agenda é demasiado preenchida e quase exagerada.

R - Fala verdadeiramente de amigos ou de conhecidos?
JG - Não, falo de amigos, de amigos nepaleses, pessoas que já me ajudaram. A amizade também é feita de intercâmbios de favores. Podia ser uma pessoa arrogante e pensar que a amizade deles é interesseira, que querem apenas fazer negócio comigo. Mas não. Também sinto saudades deles, gosto de ir ao Nepal, fico preocupado quando me dizem que a mãe de fulano de tal teve um cancro no estômago, que foi operada e que agora está bem, em Katmandu. No meio da brutalidade de que todos falam em relação a mim, também devo ser uma pessoa sensível. O Nepal é um país fascinante.

R - Mudou muito desde a sua primeira visita?
JG - Muito. Nalgumas coisas para melhor, noutras para pior. Há cada vez mais poluição, cada vez mais falta de qualidade de vida. Ao ambicionar ser aquilo que nós somos, eles apenas olham para as coisas boas, não olham para as coisas más. Passam também a deixar de viver despreocupados, a correr contra o tempo, a perder qualidade de vida. Aquelas ruas estreitas, onde antigamente só passavam pessoas, estão agora cheias de motorizadas e carros, a grande velocidade. É um sinal dos tempos, é inevitável mas para mim é triste. Antigamente, tinham mais eletricidade do que têm hoje e às vezes eu pergunto porque não me respondem aos e-mails e eles dizem que naquela semana não tiveram mais de três horas de energia e, por esse motivo, não o puderam fazer. Isto às vezes dá que pensar. As pessoas, às vezes, queixam-se por tudo e por nada. Vão viver para o Nepal só com três horas de eletricidade por dia e a ver se não aproveitam bem o tempo. Sim, mas voltando à pergunta, senti muito a mudança, desde 1992 até agora já lá vão quase 20 anos.

R - É mais difícil a adaptação ao Nepal ou quando regressa à Europa?
JG - Durante grande parte da minha vida passava seis meses na América do Sul e no Nepal e só os outros seis na Europa. Nunca tive, na verdade, grandes problemas com a adaptação, com os fusos horários, o jet-lag...

R - Referia-me mais à sociedade, à forma de viver...
JG - Repare, ao fim de alguns dias, começa a cansar: uma pessoa para apanhar um táxi tem que regatear antes, para cortar o cabelo tem de regatear. Às vezes apetece dizer: faz lá um preço honesto e não me obrigues a perder tempo. Mas a verdade é que eu, por mais que compreenda aquela cultura e a admire, para eles sou sempre um turista. Mesmo tendo amigos no Nepal, só há duas fações: eles e nós.

R - Uma espécie de pernas com dólares?
JG - Exatamente. Noventa por cento da economia do Nepal depende do turismo: para o turista, o preço duplica ou triplica.

R - Falava há pouco de regatear os preços no barbeiro. Costuma cortar a barba no Nepal?
JG - Cortar a barba custa 20 cêntimos, cortar o cabelo custa outros 20 cêntimos...

R - E durante a expedição?
JG - Aí a barba cresce. Até porque protege.

R - Como é a sua vida na montanha?
JG - Na montanha estou meio entretido com estes gadgets. Temos de estar constantemente a aproveitar o sol - quando há sol - para, através de painéis solares, carregar as baterias dos computadores, dos rádios e dessas macacadas todas. Isso é logo de manhã. A preocupação é acordar, que o sol vem aí e vou pôr tudo a carregar. Depois, é fazer as coisas demoradamente, uma horita para tomar o pequeno-almoço, um bocadinho de leitura, lavar a roupa, falar com outras expedições...

R - Há também um lado social?
JG - Há. E é muito interessante porque, se formos a ver, isto tem pouco a ver com as montanhas. Tem mais a ver com as pessoas. Esta é uma atividade de pessoas. É uma descoberta interior, tentarmos superar-nos a nós próprios, vermos até onde conseguimos ir, gerir todas essas emoções, as dificuldades, os riscos, os nossos medos, a sensatez. Essa é que é a parte interessante da gestão. O lado social é importantíssimo. Seria quase impensável ir para um campo base e não dar sequer um olá a outras expedições que existissem nas redondezas. Já estive num campo base onde estávamos sozinhos e se calhar a expedição mais próxima estava num campo base a um dia de distância. E compensa: em dois dias de repouso vamos lá fazer uma visita, beber um chá com eles, a três ou quatro horas de caminho...

R - E um Vinho do Porto?JG - O Vinho do Porto pesa. Mas às vezes levo comigo. Nem é para mim, é para poder receber condignamente outras pessoas. É quase um ritual: os espanhóis gostam de levar as suas coisas, eu levo umas azeitonas, uns chouriços, um vinho tinto. No fundo, tudo aquilo que sei que não vou encontrar em Katmandu.

R - Quantas horas dorme por dia quando está em expedição?
JG - Durmo bastante. Durmo sempre oito horas. Depois, em expedição, acabo por me habituar a dormir nove ou dez horas. Tem a ver com o frio, porque quando o sol se põe baixam automaticamente dez graus. Por norma jantamos às sete e às nove já estamos dentro do saco cama. Só às sete da manhã do dia seguinte é que saímos, pelo que passamos, se calhar, umas boas 12 horas deitados, das quais, facilmente, 10 a dormir.

 

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