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«Tenho cada vez mais receio de um dia não conseguir subir»

JOÃO GARCIA CONFESSA TER MOMENTOS DE MEDO E DESCOBRIR PERIGOS NA EUFORIA

Record- À medida que o tempo passa, sente-se menos medo da morte perante desafios tão grandes?
JG - Não. Pelo contrário. Em miúdos somos muito mais inconscientes. É um pouco como diz o filósofo: quanto mais sei mais me apercebo do tão pouco que sei. Na montanha acontece mais ou menos a mesma coisa. Quanto mais calmo, mais me apercebo de como são perigosas estas montanhas, do tão pouco que controlamos, como somos tão pequeninos. E tenho cada vez mais receio de um dia não subir estas montanhas.

R - Há muitos momentos de medo?
JG - Infelizmente há. Não muitos. Logo porque, de antemão, tentamos evitar uma situação de risco. Essa é uma coisa que uma criança faz mas não um adulto, porque tem uma maturidade que o impede de fazer isso. Mas há situações em que temos medo e ainda bem para podermos calibrar o bom senso e tomar as decisões certas a dada altura. Aquela coisa do popular e do leigo, vendo as imagens sem qualquer contexto, de que isto é para maluquinhos não é verdade. Garanto que, nas montanhas, os maluquinhos morrem em três tempos.

R - A euforia é perigosa?
JG - Muito. Mas muito mesmo.

R - Especialmente na descida?
JG - Essa triste estatística de que mais de 90 por cento dos acidentes mortais se dão na descida tem a ver mais com o cansaço extremo. Aquela vontade cega de atingir o cume a todo o custo faz, muitas das vezes, com que os alpinistas deem tudo o que têm. Mas depois falta a outra metade. É como se a Rosa Mota corresse uma maratona e ficasse pelos 21 quilómetros. E os restantes? Na maratona ainda se pode parar, encostar ao passeio, mas na montanha não é assim, não se pode parar ou pensar que se pode descer no dia seguinte. Tem de se descer no mesmo dia.

R - Numa situação de perigo costuma ser assaltado pela memória daqueles que já morreram na montanha?
JG - Não. Não me assolam esse tipo de pensamentos. Estou muito concentrado no que estou a fazer. Houve um ano em que a imagem do Pascal não me saía da cabeça. Traumas, mais ou menos, toda a gente tem. Mas nem vejo isso numa perspetiva negativa porque até nos ajuda, porque leva-nos a dedicar mais atenção. Mas não vou lá para cima a pensar noutras pessoas. Infelizmente, ali sou só eu.

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