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À espera da oportunidade

À espera da oportunidade
À espera da oportunidade
A crónica desta semana mostra mais avanços, pois a meteorologia foi benevolente connosco. Mas  não subitamente, já tínhamos subido ao primeiro acampamento e montado uma tenda. Depois de dormir uma noite aos 5.800 m, eu e o Jean Luc subimos para realizar um depósito de equipamento aos 6.200 m, passando a parte mais crítica desta ascensão, a subida de umas quedas de gelo  impressionantes - parecíamos umas formiguinhas dentro de uma terrina de arroz...

Na semana passada, no acampamento base (CB), pela hora do lanche, o Jean Luc estava a entrar na tenda-messe quando aconteceu o sopro da avalanche e, ao abrir o fecho da  entrada, o vendaval arrancou-lhe a tenda das mãos e os óculos da cara. Com uma nuvem de neve em pó que lhe entrou nos pulmões sentiu-se como se estivesse literalmente a afogar... ficou em pânico. Eu estava na minha tenda pequena que estremeceu uns largos 10 segundos e ouvia o Jean Luc lá fora a falar-praguejar alto. Depois de me certificar que a minha malta estava bem, fui à beira do declive gritar aos espanhóis: "Estais todos bien?". Resposta: "Si, e vosotros?"... Visivelmente, o campo deles foi o mais afetado, com muitas tendas destruídas...

Fomos para a cama a nevar forte e a perceber que durante a noite haveria outras avalanches. Mais tarde houve outro sopro que estremeceu anormalmente a tenda, e que, em vez de a cobrir com neve, a limpou literalmente. Estava no saco-cama com a lanterna numa mão e a navalha na outra, a fingir que dormia... abri a janela e vi a migração dos espanhóis para o campo dos italianos. Já era escuro e quando o bailado de luzes acalmou voltei a deitar-me mas com um sono sobressaltado sempre que um dos comboios de neve passava por perto.

Só para clarificar, em princípio a neve das avalanches não chegará ao nosso acampamento, mas fica por perto, e o que eu chamo de sopro é a deslocação de ar numa determinada direção, movido por essa massa enorme de toneladas e toneladas de neve, cujo sopro, esse sim, nos pode atingir.

Pelas 5.30 já não conseguia dormir e meia hora depois, ainda antes do nascer do sol, saí da tenda e fui ver da nossa tenda-messe, que, surpreendentemente, não colapsou. Sacudi a entrada, que parecia ter mais de 50kg de neve, e só depois entrei. Dei umas murraças, mas ao contrário do que esperava, que a neve se desvanecesse do outro lado do nylon, parecia ter dado um murro num saco de boxe gelado... fi-lo outra vez mas com mais cuidado, pois em cima da tenda deveriam estar uns 200 kg de neve - um empurrão, para mais com a porta aberta, podia desequilibrar a sua estrutura esférica e fazê-la colapsar outra vez, só que agora em cima de mim...

Com estas condições adversas, o JeanLuc e o Johan regressaram a casa mais cedo, fazendo o trekking do Larkya Pass, um colo a mais de 5.200 m de altitude que vai dar ao circuito do trekking do Anapurna. Na verdade ambos têm de regressar aos seus empregos já no final deste mês, e o mês e meio que por aqui passaram seria suficiente para terminarmos juntos este trabalho, mas estes dois nevões isolados atrasaram-nos muitíssimo... era um palpite, o Manaslu quase não teve neve este inverno e era improvável que nevasse tanto agora, mas, mesmo assim... Não fico sozinho, com tanta gente por aqui, certamente irei encontrar outros escaladores com o mesmo ritmo e os mesmos planos. Mas, entretanto, continuo a subir bastante cedo quando faz mais frio, por razões de segurança.

Para rapidamente me habituara esta nova dinâmica de escalar só, subi durante a noite ao primeiro acampamento na companhia da lua cheia. Saí pela meia-noite e passados alguns minutos das três da manhã, cansado, só me imaginava a entrar dentro da tenda e dormir umas boas horas, para depois seguir para o próximo acampamento. A minha surpresa foi grande: a tenda tinha desaparecido por completo! Reparei, com a ajuda da minha lanterna, que os coreanos tinham escavado umas crateras mais profundas do que a altura das suas tendas. Compreendi que tinha uma grande tarefa noite dentro... foram 6 horas de pá na mão para desenterrar a tenda, mais uma para reparar os 5 varões partidos e reinstalá-la noutro local. A lua é minha testemunha!

Sabia que tinha nevado bastante e certamente iria encontrar a tenda semi enterrada e algo danificada, mas não imaginava que tivesse nevado assim tanto. Noutras expedições

algo semelhante já me acontecera, mas normalmente dividi o trabalho com mais gente, agora...

Devido à surpresa da tenda, acabo por ficar a descansar um dia no C1, abrigado do sol tórrido, dentro da tenda, com um saco-cama por cima a fazer alguma sombra. Às 6 horas do dia seguinte subo diretamente aos 6.800mdo que entendo vai ser o meu C2+ ou quase C3, uma vez que acho que o local do C2 é bastante perigoso e exposto às avalanches. Fiz estes 1.000mde desnível em cerca de sete horas para fazer o depósito de uma tenda, colchoneta, gás, cordas e outros equipamentos, e desço de novo ao C1 para mais uma noite. Na manhã  seguinte desço ao acampamento base e cruzo-me com uma série de caras novas, acabadas de chegar ao Manaslu e no início da aclimatação.

Regresso ao CB, onde já estão 9 expedições, quase num total de 70 alpinistas... pensar que estivemos aqui sozinhos e agora é uma multidão! Programa das festas: subir outra vez aos 6.800 m, dormir uma noite, descer e esperar por uma janela de bom tempo para tentar o cume  do Manaslu.

Abraço e até para a semana.

 

 

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