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Grande susto a subir ao C1

À CONQUISTA DOS PICOS DO MUNDO

A crónica desta semana mostra que escalar montanhas é uma escola de paciência. Ainda para mais encontro-me sozinho no acampamento base (CB), pois os meus outros três companheiros, por diversas razões, já regressaram a casa. Não que me encontre realmente sozinho, pois tenho um cozinheiro e um ajudante de tarefas, para além dos outros 50 e tal escaladores das restantes expedições. Mas, francamente, eu sou paciente, só que deixo de o ser quando todos os dias o meu staff nepalês pergunta quando é que vou subir... subo quando puder!

Como a nossa foi a primeira expedição a chegar ao Manaslu, estou à frente na habituação do organismo à altitude, aclimatação indispensável para me propor em três dias subir aos 8.163 metros do cume do Manaslu. Mas, para isto, também necessito de outras valências: que pare de nevar, e que os ventos aos 8.000 m não sejam superiores a 30/40 km/h.

No passado fim-de-semana, com perspetivas de uma calmia desses ventos e a pressão do CB, precipitei-me e quando deixou de nevar, juntamente com um contingente internacional, prescindindo de outro dia de sol para acamar as neves recentes, avançámos montanha acima até ao primeiro acampamento (C1). No itinerário balizado por bambus que atravessa um glaciar com o mesmo nome desta montanha, na fase final da subida a esse acampamento e com um pouco mais de inclinação, o acumular das neves recentes deu de si e aconteceu uma avalancha que não fez muitos estragos, mas que impôs o seu respeito, se não mesmo um grande susto. Primeiro um estrondo, e depois uma fatia de meio metro de neve a dar de si. Começou a deslizar neve por entre as minhas pernas e, acompanhando os gritos de todos, deslizei montanha abaixo, envolvido por esta inofensiva massa de toneladas de neve! Ninguém se aleijou, mas estávamos a querer subir antes do tempo e isto diz-me que paciência e avaliação do risco são realmente o nome deste jogo.

Retomando a subida ao C1 por um trilho mais longo, mas menos inclinado e livre de avalanchas, para chegarmos ao acampamento onde, para minha surpresa, a tenda não se encontrava muito enterrada, ao contrário da última vez. Tarefas do costume: desenterrar a tenda e reinstalá-la noutro local para poder sobreviver ao próximo nevão. Passei uma noite e no dia seguinte regressei ao CB.

Há cerca de 15 anos, nas minhas primeiras expedições, não havia telefones de satélite e os únicos dados sobre a meteorologia eram a observação direta, e um altímetro/barómetro para avaliarmos os estados de alta e baixa pressão. Há 15 anos eu escrevia numa máquina de escrever e hoje em dia temos computadores...

A meteorologia hoje tem um papel primordial nesta atividade, pois podemos prever, prepararmo-nos, mas não devemos ceder a precipitações várias. Esta meteorologia aumenta as possibilidades de sucesso e reduz o risco se soubermos e aceitarmos as lições da "escola da paciência".

Abraço e até para a semana.

 

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