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Quatro horas a escavar

À CONQUISTA DOS PICOS DO MUNDO

Na semana passada falei-vos um pouco sobre o Nanga Parbat, das suas dificuldades e riscos, da aparente tranquilidade do Paquistão e da subida na neve até aos 4.100 metros de altitude do campo base (CB).

Decidi estabelecer apenas outros dois acampamentos de altitude, para além do CB, mas para lá chegar é necessário reunir algumas condições. É preciso dar tempo ao organismo na adaptação à altitude e isso faz-se de forma progressiva, à medida que subimos equipamentos para esses acampamentos de altitude e instalamos cordas de segurança nos troços mais difíceis, regressando sempre de novo ao CB para recuperação.

Para isso, no dia 21 subimos pela primeira vez ao primeiro acampamento (C1), a 4.900 m, onde estabelecemos um depósito de equipamentos. Entendemos não montar tendas, pois estamos em forma, sentimo-nos aclimatados para esta altitude, de maneira que apenas deixamos os equipamentos para o acampamento seguinte dentro de um saco amarrado a uma rocha para qualquer eventualidade.

Depois, dia 23 voltámos de madrugada ao tal C1, e a seguir, reembalámos as nossas mochilas com as tendas, fogões, cordas e outros equipamentos que tínhamos deixado dois dias antes e carregámos tudo até aos 5.300 m, num corredor largo com muita neve. Subimos até um ponto rochoso onde mais uma vez deixámos os equipamentos amarrados a uma rocha e descemos ao CB para mais um dia de descanso. No momento em que vos escrevo estas linhas, ainda nenhuma expedição conseguiu ir muito mais além deste ponto, mas existe um esforço conjunto para se tentar forçar o trilho na neve até à famosa parede rochosa que antecede o C2.

A partir daqui, o texto é atualizado via telefone, por já me encontrar no C2, a 6.000 m, onde não há condições para utilizar o computador. Saímos do C1 às 2.30 da manhã. Depois de sete horas de escalada encontrámos finalmente o muro vertical, onde andámos a arranhar com os crampons até conseguirmos subir. O pior foi depois. Levámos quatro horas a escavar com a pá, para conseguir estabilizar uma plataforma onde pudesse ser montada a tenda. Finalmente, tivemos direito a chá e bolachas.

A intenção agora é continuar a equipar o trilho com corda (para isso é que carreguei com 100 m dela às costas). Depois de duas noites no C2 voltaremos descer. Nesta altura, anormal é haver tanta neve. Se por acaso não acalmar, julgo que ninguém conseguirá ir ao cume antes de agosto. Vamos esperar para ver. Se a meteorologia ajudar, o dia 5, dia de lua cheia, pode ser o indicado para tentar subir ao cume.

Como companheiro de cordada tenho Amin Hullah, da aldeia de Shimshal, que me acompanhou há dois anos na escalada ao K2, a segunda montanha mais alta do Mundo. Amin, de 36 anos, com uma larga experiência nos quatro cumes de 8.000 m da sua região, já me tinha demonstrado que gostaria de tentar o Nanga Parbat. Revejo-me também na sua vontade de ir mais longe, mais além, pois a dada altura da minha vida também desejei conhecer montanhas cada vez mais distantes, não necessariamente mais altas, classificando uma aventura no seu todo e não no seu calibre.

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