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Em dia da Mulher, Record falou com Patrícia Ribeiro, mais um exemplo de dedicação no desporto ao mais alto nível. Com 38 anos, já foi jogadora profissional de ténis e iniciou a carreira no padel em 2016. O seu primeiro torneio internacional aconteceu em agosto de 2019 e treina em Madrid desde setembro de 2021. Membro da Seleção Nacional desde 2018, Patrícia Ribeiro é a atual 74.º do ranking mundial, tendo alcançado este ano o título do FIP Bronze Brasil Rio Grande, tendo já marcado presença nos 1/16 avos de final de Torneios Major, da categoria mais relevantes do calendário internacional.
Em conversa com Record, Patrícia abordou os desafios da sua carreira e da importância do papel feminino no desporto. A atleta portuguesa é licenciada em Farmácia e foi profissional no Hospital Beatriz Ângelo em Loures até fevereiro de 2019. Agora, vive e treina em Madrid mas revela que vai regressar a Portugal a partir do próximo mês.
Leia a entrevista na íntegra:
RECORD - Antes de mais, como está a correr a época a nível desportivo?
PATRÍCIA RIBEIRO - Neste momento não estou a jogar no circuito principal, porque houve uma diminuição do tamanho dos quadros, e a minha parceira tem menos pontos que eu. Estou a jogar o circuito FIP para conseguir pontos, para voltar a jogar o circuito princial. O meu objetivo é somar o máximo de pontos no circuito FIP, que está bastante bom e a dar muitos pontos, e temos muitas opções de torneios, e é mais fácil até neste momento ganhar pontos no FIP do que no primeiro, porque no primeiro houve algumas alterações, o que torna complicado defender os pontos, que eu tenho 600 e tal pontos no ano passado, e se não tomar pontos não consigo defendê-los. Já ganhei um FIP no Brasil, fiz meias-finais em outros FIP's no Qatar, em Doha, e joguei o FIP de Paredes em Portugal, mas a época está a correr bem, três torneios, e está bastante bem. Já tenho uma vitória no FIP que é muito positiva, seja pelos pontos, seja pela visibilidade também, porque os FIP's neste momento, nós jogando FIP's temos um bocadinho mais de visibilidade do que jogar a prévia, porque a prévia não tem transmissões, enquanto os FIP's, muitos deles têm transmissões, então para nós também é um ponto a favor neste momento jogar FIP's, também é porque temos mais visibilidade, para Portugal principalmente, que passa no YouTube e todas as páginas de padel também passam os nossos resultados, e acaba por ser positivo.
R - Foi para Madrid por causa do padel ou por motivos profissionais? PR - Sim, foi pelo padel. Achei necessário, porque na altura, e eu estou aqui 4 anos, mas agora por acaso vou-me embora... vou voltar para Portugal, mas isso é outra coisa, mas vim para cá sim, porque na altura, quando eu vim para cá, senti que necessitava de outro tipo de treinos, porque em Portugal não havia treinadores nem pessoas para treinar, e eu necessitava dar um salto e de treinadores que estivessem comigo a full para eu conseguir melhorar, e só fazia sentido, ou vinha para Madrid, ou acabava por deixar de jogar, porque senti que não ia conseguir dar o salto em Portugal. Investi há 3 anos e meio vir para Madrid e agora tomei a decisão de voltar para Portugal.
R - Porque tomou a decisão de voltar a Portugal?
PR - Por duas razões, ou melhor, principalmente porque monetariamente está muito complicado estar em Madrid, porque os treinos, eu pago muitos, muitos, muitos treinos... essa é a principal razão. E porque também não treinamos, porque como estamos sempre a viajar, treinamos muito pouco, e então neste momento, com tantas viagens, estou dois meses fora, que não venho treinar, não venho um dia a Madrid, e estamos a pagar treinos na mesma, e não estamos a treinar. Então, neste momento eu sinto que estar em Madrid já não traz assim tanto benefício, porque já sei bem o que é que tenho que fazer, já melhorei bem tecnicamente, sei como é que tenho que jogar, e a parte de ter melhores parceiros de treino aqui é bom, sim, só que a verdade é que nós não treinamos, e muitas vezes, ou estamos muitas semanas tiras fora, ou quando voltamos, treinamos um dia e vamos embora. Então, neste momento não faz muito sentido, e para baixar os custos, porque nós, independentemente de treinarmos ou não, temos que pagar os treinos, e isso é complicado, porque lá está, com as coisas do Premier, isto tem também que piorar um pouco, de não entrarmos no Premier, monetariamente também não ganhamos na primeira ronda, se perdermos, então foi uma opção um pouco monetária. A razão é principalmente monetária, mas porque sentia que neste momento não estava a aproveitar os treinos, porque não treinamos quase nada...
R - É licenciada em farmácia. Nunca conseguiu conciliar com o padel?
PR - Não. Eu tenho 38 anos, mas eu comecei a jogar padel já tarde. E a jogar a sério há 4 anos. Foi quando deixei a farmácia, eu trabalhava no hospital de Beatriz Ângelo, em Loures, e tive que deixar para poder treinar e dedicar-me. E, na altura, quando deixei, ainda estava em Lisboa, fiquei uns meses em Lisboa, depois foi a pandemia e depois foi quando decidi vir para Madrid.
R - Era mesmo impossível conciliar as duas atividades?
PR - É impossível conciliar, porque principalmente, porque era o que eu estava a dizer, nós agora, neste momento, passamos às vezes quase 8 semanas fora de casa, que não vou um dia a casa, então é impossível conciliar com qualquer tipo de atividade, seja estudar, seja trabalhar.
R - É muito difícil ser profissional de padel?
PR - Sim, para formos do top, sim, é bastante complicado. Os primeiros anos é perder bastante dinheiro para tentar ganhar pontos e para tentar mais à frente, conseguir ganhar algum dinheiro, mas neste momento ainda é complicado.
R - Sobre do Dia da Mulher, sente que o padel feminino é um exemplo de crescimento a nível do desporto?
PR - Sim. Ainda falta muito, mas sim. Há muita gente a praticar, seja principalmente o padel feminino profissional, há muita gente a praticar, mas principalmente acho que o padel feminino mais amador, isso há muita, muita gente a praticar.
R - Na sua modalidade, sente que há desigualdades a nível de prémios masculinos e femininos?
PR - Ainda há um pouco... Em Portugal há bastante, mas em Portugal eu ainda posso aceitar um bocadinho, porque nós somos muito menos a jogar, os quadros são mais pequenos, temos menos jogos para ganhar o torneio, jogamos menos jogos... Mas, por exemplo, o padel internacional, no Premier, e isso não concordo, porque jogamos exatamente o mesmo número de jogos, tem tanta gente a ver o padel feminino como o masculino, por isso, sim, mas a diferença do Premier ainda é grande. No padel, há tantos adeptos a ver o feminino como o masculino.
R - Em conclusão, sente que há evolução nesse capítulo mas ainda há desigualdades?
PR - Sim, há evolução, sem dúvida. Desde que eu comecei há evolução. E há já torneios, mesmo no Premier, não tenho a certeza absoluta, mas acho que há dois ou três que o prize-money é igual. Mas, claro, há uns 28 torneios por ano. Ou seja, ainda estamos longe, mas que está melhor, sem dúvida. E em Portugal é igual. Também já temos alguns torneios com o prize money idêntico e têm vindo a melhorar. Todos os anos vê-se o crescimento do padel e os prémios também têm aumentado.
R - A nível pessoal, o que representa o Dia da Mulher e se, na sua opinião, faz sentido comemorar esta data?
PR - Boa pergunta. Eu acho que faz sentido comemorar mas acho que o Dia da Mulher é todos os dias, como o 'Dia do Homem' ou como tudo. Faz algum tipo de sentido comemorar, até porque no desporto em geral ainda há bastante desigualdade.
R - Para terminar, deixe uma mensagem a todas as mulheres que praticam desporto e que muitas vezes sentem dificuldades em conciliar as atividades.
PR - Que acreditem, que pratiquem muito desporto e que acreditem que se têm o sonho de ser atletas profissionais, qualquer que seja o desporto que se pode, que podemos se acreditarmos e se trabalharmos para isso, que podemos lá chegar sempre.
Por Diogo Jesus