Foge de casa, atravessa meia África e escapa à polícia: o miúdo que não quis ser como Eto'o

Thierry Futeu cumpre sonho de jogar râguebi após travessia para Espanha que já lhe valeu uma proposta para fazer um filme

Thierry Futeu atravessou meia África, passou fome, dormiu na rua, fugiu da polícia mas conseguiu. O camaronês, de 24 anos, é hoje um jogador de râguebi, um internacional espanhol que veste as cores dos franceses do Stade Français. Mas não foi fácil...

Nascido nos Camarões há 24 anos, Thierry Futeu cresceu a jogar futebol, como Samuel Eto'o, o "ídolo da maioria das crianças camaronesas". Só que para se manter naquele desporto era preciso pagar uma quota a um clube e por isso o pai disse-lhe que o futebol tinha acabado. "Um amigo levou-me a um campo de râguebi e gostei do ambiente. Era o Union Rugby Club Bilongue. Mas não havia competição... Um dia chamaram-me à seleção de sub-20 e pensei que talvez pudesse ter algum futuro neste desporto. Outro amigo ligou-me de Marrocos e disse-me para ir para lá jogar", contou, em declarações ao 'El País'.

Depois, fugiu de casa. "O meu pai era muito rígido e disse-lhe que ia jogar um torneio. Coloquei algumas roupas dentro de uma mochila e deixei a minha família (os pais e duas irmãs). Nos Camarões os miúdos ganhavam algum dinheiro a tirar areia da praia, que se destinava à construção, ou a ajudar a carregar os sacos das pessoas que iam ao mercado. Agarrei nesse dinheiro e fui para Marrocos. Achei que ia ser fácil..."

Mas não foi. Atravessou vários países de autocarro e de táxi com um amigo, pelo caminho ficou sem dinheiro. O pai enviou-lhe algum e pediu-lhe que voltasse para casa. "Foi uma decisão difícil. Se voltasse sabia o que me esperava, tinha de continuar". Atravessou um deserto, esteve uma semana na Argélia, onde trabalhou na colheita de laranjas. Depois, finalmente chegou a Marrocos.

"Apercebemo-nos que o nosso amigo que nos telefonara não jogava râguebi. O objetivo dele era chegar a Espanha. 'Estás louco', disse-lhe. 'Como vamos atravessar a fronteira?'."

Durante a noite os dois rapazes foram conduzidos a um monte a norte de Marrocos, perto da fronteira com Melilla (território espanhol no norte de África) onde permaneceram de setembro a maio. "Construímos tendas com troncos, pedras e plástico. Passámos muito frio... Havia gente de vários países, dos Camarões, da Nigéria, do Senegal, da Costa do Marfim..."

Até que finalmente conseguiu. "Nunca mais vou esquecer, foi no dia 28 de maio de 2014, às 5h30 da manhã, quando há menos polícia. Tinha havido a final da Liga dos Campeões e ele estavam mais relaxados... Naquele dia fomos com uns somalis, começámos a correr sem ver onde estava a polícia", referiu.

O objetivo era passar a cerca e chegar a Melilla. "O que nós queríamos era ser apanhados pela Polícia Nacional porque uma vez em solo espanhol tens direitos. Corríamos e gritávamos 'liberdade, liberdade!' Fomos assim até ao Centro Temporário de Imigrantes. Ali colocaram-nos uma pulseira de identificação, fizeram exames médicos, deram-nos um pacote com roupa, artigos de higiene, e colocaram-nos numa tenda."

Ficou em Melilla três meses, teve aulas de castelhano e informática. E também jogou râguebi na praia... 

Seguiu-se uma viagem, já em solo europeu, que terminou em Madrid. "Encontrei uma equipa, el Grifón. Ajudaram-me a pagar os transportes até ao local de treino. No primeiro dia cheguei cedo e de repente vejo chegar um autocarro com várias pessoas a envergar uniformes da polícia. Pensei que, sendo ilegal e, não tendo documentação, iam deportar-me. Comecei a tremer. Mas afinal eram os meus companheiros de equipa. 'Se a polícia um dia te mandar parar, chama-nos', disseram-me a brincar."

Nessa fase estava aos cuidados de uma ONG, mas rapidamente foi deixado à sua sorte, com 300 euros no bolso. Foi depois para o Alcobendas, onde não tardou a brilhar. "A federação queria-me na seleção e para mim foi uma forma de poder pagar aquilo que fizeram por mim. Consegui a documentação, negociaram com a World Rugby e estreei-me por Espanha a 17 de março de 2019, contra a Alemanha."

Só que a aventura de Thierry Futeu não ficou por aqui. "Comecei a receber convites de clubes de França." Acabou por assinar com Stade Français e vive do râguebi. "O meu sonho é disputar o Mundial com a seleção de Espanha. Tenho uma nacionalidade, sou dos Camarões, mas gostaria de ter a nacionalidade espanhola. Viajar às vezes não é fácil, nos controlos dos aeroportos os meus companheiros passam por um lado e eu tenho de ir por outro, sinto-me envergonhado."

Já lhe propuseram fazer um filme com a história da sua vida, mas rejeitou. "Antes quero completar a minha história. Quero ir ao Mundial e mostrar aquilo que posso fazer em França!"

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