João Aranha e a retirada do Mundial: «Medalhas podem esperar, vidas não!»

FPS critica ISA por falta de apoio numa altura em que Trump anunciou fechar fronteiras devido ao coronavírus

• Foto: Fernando Ferreira

Em 2019 a Seleção Nacional de Surf Adaptado trouxe da Califórnia duas medalhas, por intermédio de Marta Paço e Nuno Vitorino. Agora, em 2020 a equipa das quinas partia ainda com mais ambição para o Mundial, que se realizou novamente em La Jolla. Só que horas antes da estreia, a Seleção acabou por desistir da participação na prova, retirando estrategicamente para poder regressar a Portugal. Uma medida tomada em virtude do anúncio de Trump em fechar as fronteiras norte-americanas devido ao coronavírus.

Uma decisão difícil, mas que teve de ser tomada por João Aranha, líder da Federação Portuguesa de Surf, com o apoio dos atletas. A Seleção regressou de imediato a Portugal, onde os atletas estão agora em quarentena, não arriscando a possibilidade de ficar em terra e sem meios para regressar. Contudo, a ISA nada fez para ajudar a comitiva lusa, nem aquelas que optaram pela mesma decisão – a Itália também optou por não competir. O campeonato acabou por se realizar, com a Espanha a garantir o título mundial coletivo. Algo que Aranha considera uma atitude irresponsável por parte da organização.

Record - Quando e como a comitiva nacional percebeu que a melhor solução era desistir da participação no Mundial e regressar mais cedo a Portugal?

João Aranha - Fui analisando a situação relativa ao Covid19 diariamente. Mantive o contacto com Portugal de forma a entender o que as nossas autoridades poderiam fazer para nos ajudar, caso o pior acontecesse e o regresso ficasse comprometido. Apesar de sempre disponíveis, tanto a Secretaria de Estado como o IPDJ, informaram-nos que se houvesse problemas era impossível ir lá retirar a equipa e iríamos ficar por nossa conta. No terreno, o Cônsul Honorário de Portugal em San Diego foi extremamente prestável. Já o consulado geral em São Francisco nem sequer respondeu aos contactos. Entretanto o presidente dos EUA anunciou o fecho de fronteiras e no contacto com as companhias aéreas vi que não havia qualquer garantia e que seria arriscado [regressar após o fim do campeonato]. Reunimos com a equipa e dei-lhes a conhecer o cenário, sendo que, pela minha experiência em cenários de emergência, a minha decisão seria de retirar sem arriscar. Toda a equipa foi solidária e da mesma opinião. As medalhas podiam esperar, as vidas não.

R - Quando partiram de Portugal já tinham noção de que esse cenário poderia acontecer ou escalou tudo de uma forma muito rápida?

JÁ – Francamente, era algo previsível, mas não com a rapidez com que aconteceu. Escalou bastante rápido e obrigou a reajustes ao plano. 

R - O que foi feito pela ISA para proteger os atletas ou o que deveria ter sido feito e não foi?

JÁ - Mais uma vez, a ISA demonstrou uma total incapacidade de ajudar as seleções nacionais. Nada fez. Não houve qualquer tipo de apoio, nem a nível de contactos com as autoridades nem sequer ao nível de contactos com companhias aéreas. Ainda por cima, a prova decorria perto da sede da ISA, no país onde trabalham diariamente, não era num local remoto qualquer. A única resposta que recebi foi: "se abandonarem, compreendemos perfeitamente". Nós não precisamos da compreensão para nada. Precisávamos era de apoio e, esse, foi zero. Nem sequer consideraram devolver o valor das inscrições. Além disso, continuar a prova foi, na minha opinião, uma irresponsabilidade, considerando o panorama mundial.

R - Esta situação vai afetar futuras participações das seleções nacionais em provas da ISA?

JÁ - Nesta altura ainda a ISA considera que a prova de qualificação olímpica, os World Surfing Games, se poderá realizar. Acho que estão a delirar e não se vão conseguir. Isto porque a prova seria de 9 a 17 de Maio, em El Salvador. Além da pandemia, El Salvador já proibiu a entrada a vários países, o que iria desvirtuar a possível qualificação, além de ser de uma total injustiça para os países impedidos de competir. A participação estará dependente da evolução da pandemia, mas parece muito difícil nesta altura.

Por João Vasco Nunes
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