Antiga top 25 júnior confronta Thiem: «Acabas os torneios com buracos nos sapatos como eu?»

Ines Ibbou publicou carta aberta contra as declarações do austríaco

Ines Ibbou tem 21 anos é argelina e respondeu ao tenista austríaco Dominic Thiem, que se revelou contra o Fundo de Apoio aos jogadores, através de uma carta aberta emocionada, em que conta o seu percurso e todas as dificuldades pelas quais passou e ainda passa.

A antiga top 25 mundial de juniores, que atualmente ocupa o 620.º posto do ranking WTA, publicou uma carta aberta, em forma de vídeo, em que relata vários pontos da sua vida. 

"Caro Dominic", começa "Depois de ter lido as tuas últimas declarações, imaginei como teria sido se os meus pais fossem professores de ténis quando usei a raqueta pela primeira vez, aos seis anos, e imediatamente me apaixonei por ela. Como cresci nos arredores de Argel, numa família humilde e com pais que não tinham nada a ver com o ténis, não consigo evitar pensar que poderia ter tido uma grande ajuda, mas não te culpo", conta Ines Ibbou.

"Já se sabe, num país como o meu não é fácil para uma mulher ser atleta de elite. Não posso agradecer o suficiente aos meus pais todo o apoio e anos de sacrifício para que eu pudesse perseguir o meu sonho." 

"Muitas vezes não sabemos em que superfície vamos jogar. Relva? Terra batida? Mas não me interpretes mal. Isso não me impediu de construir o meu próprio caminho e ser uma das melhores jogadoras do mundo com 14 anos. E ganhei os meus primeiros pontos WTA ao vencer um torneio desta forma. Impressionante, não é? Não fui top 10, mas fui 23 do Mundo, nada mal para uma mulher africana, certo? Foi tão improvável que muitos jornalistas disseram que era um milagre", conta Ines Ibbou. 

Se eu fizesse parte do teu Mundo mágico, provavelmente teria chamado atenção de muitos patrocinadores e a Federação tomaria conta de mim, mas não aconteceu nada disso. Nike? Wilson? Prince? HEAD? Adidas? Essas marcas simplesmente não existem na Argélia. Tirando alguns equipamentos e apoio de pequenas empresas, recebi o mínimo para participar nos Grand Slams juvenis", continua. 

"Eu era a melhor tenista júnior do país, estava entre as melhores do Mundo e nem um cêntimo ganhei com isso. Irónico, não achas? Não tenho certeza se isso tenha acontecido no teu país ou em algum país europeu, mas isso não me parou…"

Ao contar a sua história, Ines compara sempre com a vida de Thiem: "Hoje tenho 21 anos, estou perto do top 600 WTA e ainda estou a perseguir o sonho pelo qual sacrifiquei a minha infância, estudos, amizades, vida em família, vida financeira, férias, aniversários, a minha vida toda. Dominic, como é ter um treinador que te acompanhe pelo circuito? Um preparador físico? Um fisioterapeuta? Um treinador mental? Um staff dedicado? Eu vivo sozinha. Sou uma mulher que viaja pelo mundo sempre à procura dos bilhetes mais baratos, a sacrificar o meu tempo, treinos e recuperações à procura de um visto sem garantias, sabes porquê? Sem passadeira vermelha, passagem livre. Preciso de vistos para todos os países. Esforço-me para escolher um calendário que me permita ganhar mais pontos. Mudas de piso rápido para terra batida de uma semana para a outra como eu faço? Acabas os torneios com buracos nos sapatos como eu?", questiona, acrescentando: "Não me lembro o último aniversário que celebrei com os meus pais. Sim, todos esses sacrifícios fazem parte do jogo, mas sim, o meu desempenho no court é que deveria ditar o destino da minha carreira e não o dinheiro que eu tenho. Isto é totalmente injusto. Estou a lidar com isso todos os dias, sem reclamar. Constantemente a lutar, em silêncio."


A dura resposta à falta de solidariedade de Thiem: «Não é graças ao teu dinheiro que temos sobrevivido»

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