Coração de Luís Guedes a bater mais forte nos Jogos Europeus para Transplantados: «É paixão e saúde»
Mais de mil atletas, familiares e doadores de órgãos são esperados até dia 27 deste mês em Arnhem
Mais de mil atletas, familiares e doadores de órgãos são esperados até dia 27 deste mês em Arnhem, na Holanda, este ano palco dos Jogos Europeus para Transplantados. O ténis é uma das 16 modalidades que integram o programa e Luís Guedes é o português que, a partir desta quarta-feira, terá o coração a bater mais forte nos courts holandeses.
“Isto é paixão e saúde ao mesmo tempo. Até há bem pouco tempo, havia a ideia de que o transplantado era um coitadinho, que não devia sair de casa, devia estar quietinho e não fazer esforços porque tinha medo de estragar aquilo que tinha feito. As coisas felizmente mudaram. Eu e o Miguel, nomeadamente no ténis, conseguimos dar essa perspetiva de que é possível. Podemos jogar normalmente, eu faço torneios normais, com pessoas normais. Muitas nem sabem que sou transplantado, mas também não digo, jogo normalmente”, começou por contar o engenheiro informático de 54 anos que, há 19, recebeu um coração novo, e teve em Miguel Bento Monteiro, também ele transplantado no Hospital de Santa Cruz, um mentor.
Com o parceiro de conquistas, Luís Guedes já colecionou várias medalhas em Jogos Europeus e Mundiais destinados a pessoas transplantadas. “O meu amigo Miguel Bento Monteiro estreou-se em 2006 e eu, em 2008, fui pela primeira vez aos Jogos Europeus. Eu perdi nos singulares, passei uma ronda só, mas nos pares, eu e o Miguel sagrámo-nos campeões da Europa. Desde essa altura fui a Campeonatos de Mundo, da Europa. Já competi na Argentina, Austrália, Suécia e Espanha…”, recorda o português, explicando que nestes Jogos competem entre si pessoas com todos os géneros de transplante, desde o fígado, aos rins, pâncreas ou coração. “O médico tem de dar o aval. Há um protocolo rígido que é preciso ser assegurado. Nem a própria administração dos Jogos se atreve a receber pessoas que não estão em condições para competir. O risco é grande”, vinca.
Embora com as medalhas mira, nos Jogos sejam Europeus ou Mundiais a partilha de vivências faz parte das confraternizações e os laços são criados, tal como as memórias que não se esquecem. “Tenho uma história que me marcou imenso. Tinha conhecido um casal em Brisbane que reencontrei na Suécia, dois anos depois. Estávamos à mesa de almoço com outro casal ao lado. E perguntei quem eram. ‘Nós somos apoiantes aqui deste senhor, porque tem o coração do nosso filho’. Depois, o australiano explicou que eles o acompanhavam para todo o lado, nos voos, iam a casa dele todos os dias, por saberem que o coração do filho está ali a bater… A partir de uma determinada altura, a doação de órgãos passou a ser anónima, portanto ninguém sabe onde é que vem o coração”, recordou o português.
Com o objetivo de “celebrar a vida” nestes encontros desportivos encetados na década de 1980, o português reflete sobre as doses de saúde que o ténis lhe traz. “Foi com o ténis que eu recuperei mental e fisicamente. Cheguei a pesar 43 quilos e perdi a massa muscular toda, porque estive internado quatro meses. E foi no ténis que encontrei uma oportunidade de fazer a minha recuperação física, motora e psicológica. Obviamente são processos complicados, estive em coma vários dias à espera de um coração que se não aparecesse… Fui operado aos 35. Felizmente correu tudo bem”, relata Luís Guedes, com alívio na voz por ter deixado para trás esse momento desafiante na vida.
“Estava uma lástima. Fui transplantado em 2007, um ano depois do Miguel que, nesse ano, foi aos Jogos Mundiais a Banguecoque e sagrou-se campeão mundial. O meu pai chamou-me a atenção para o feito. Estava numa altura da minha vida que nem sabia se poderia voltar a fazer ténis. Quer dizer… Não sabia o que ia ser da minha vida. Queria era viver”, acrescenta quem sempre respirou ténis.
Afinal, o centenário Club Internacional de Foot-Ball, no Restelo, era local de trabalho do progenitor e foi, literalmente, a sua casa. O ténis e o futebol sempre fizeram parte do dia a dia de Guedes. “Vivi no CIF, o meu pai, o senhor Agostinho como era conhecido, foi encarregado pela manutenção dos campos e dos espaços. Já se reformou, mas eu vivi ali. Aos quatro anos, estava com uma raqueta nas mãos. Joguei futebol e ténis. Fui árbitro, fiz o curso de árbitro, fiz o curso de treinadores, fui professor de ténis, portanto, tenho há uma longa vida no ténis. Depois, apareceu este problema de saúde. Felizmente resolveu-se e voltei”, constata, animado, asseverando que tem “uma vida profissional ativa”.
Além da engenharia informática, a prática do ténis integra o quotidiano. “Jogo três vezes por semana no CIF, o meu clube de eleição. Os treinos são normais, de duas horas ou mais”, contou Luís Guedes que também faz voluntariado no hospital junto de quem, como ele, recebeu um órgão novo na luta pela sobrevivência.
Assumindo que já veio de Jogos Europeus e Mundiais “a zeros”, o tenista prefere lembrar que também veio de outros “com um monte de medalhas de ouro”. Todavia, o maior sucesso do tenista é outro: “Sou competitivo, mas a minha maior vitória é chegar ao final do dia!”