José Vilela: «Separaram uma família que lutou pela selecção»
Record - Porque apresentou a demissão na África do Sul?
José Vilela - Podia tê-lo feito quando voltasse, era indiferente. A verdade é que minutos depois de acabar a eliminatória enviei um fax curto e seco à federação e assim terminaram 10 anos como capitão na Taça Davis.
P - Um fax curto e seco?
R - Houve pessoas que me magoaram: na sexta-feira recebi um fax da Comissão Executiva de Gestão, eram 11h57 e os singulares tinham começado às 9h30, onde me tratavam por "Excelentíssimo Senhor". Já nem me apeteceu ler o resto; para mim, acabou ali, porque sempre me trataram por "Zé". Essas pessoas não são do ténis.
P - De qualquer forma, os problemas surgiram antes de ir para Durban...
R - O facto de ter pedido a demissão, agora, não tem nada a ver com a turbulência que se viveu nas duas semanas anteriores à viagem para a África do Sul. Desde o princípio do ano que tinha decidido que seria a minha última época de seleccionador. Os meus amigos mais próximos e os jogadores da velha guarda já sabiam.
P - Mesmo assim, sai magoado.
R - Apenas porque não queria terminar desta forma. Gostava de ter contado com o Abílio Costa (enfermeiro) e o João Maio (treinador adjunto) em Durban, só que as coisas não foram programadas, e isto não é um grupo de excursionistas, é a selecção. Fiquei magoado porque separaram uma família, desmantelaram uma equipa, que durante muitos anos lutou pela selecção, por vezes acima dos seus interesses pessoais. Neste caso, os interesses políticos sobrepuseram-se aos desportivos e eu, que tenho 52 anos, e estou no ténis desde os seis, vejo esta modalidade de outra maneira. Disponibilizámos 50 por cento dos nossos honorários para que a equipa fosse completa.
P - O que o leva a abandonar?
R - O cansaço. Desde 1994 que abdico de ter férias e de estar com a minha família por causa da selecção. É muito tempo. Por outro lado, e apesar do valor da nova geração, também senti os abandonos do [João] Cunha [e Silva], do Nuno [Marques] e, agora, a fase final das carreiras do Bernardo [Mota] e do Emanuel [Couto]. Foi, sem dúvida, um ciclo longo, não sei se o ideal. Talvez o ideal fossem cinco anos...
P - Que momentos recorda?
R - A minha estreia como capitão em 1994, na cidade e no clube onde nasci, com uma grande vitória sobre a Grã-Bretanha; a vitória contra a África do Sul, há três anos; e aquele dia em fui transportado de maca, em Belgrado, e acordei ligado às máquinas no hospital, tudo pelo que sofria pela selecção. Levo grandes saudades da união e da força de um grupo de amigos.
P - Já faz parte do passado?
R - Tomei a decisão que queria mas nunca pensei que ia custar tanto. Estou a sofrer muito interiormente.
P - E na despedida...
R - Desejo muitas felicidades ao meu sucessor, que a federação possa resolver todos os seus problemas, e... viva o ténis! Parece que foi ontem que comecei e já acabou. Mas consegui fazer daquela equipa o "Zé", que sou eu, e sinto muito orgulho nisso!
«Continuo magro e com muito cabelo»
José Vilela já tem planos para o futuro: "Por enquanto vou dedicar-me única e exclusivamente ao meu clube [Lawn Ténis Clube da Foz], a treinar os meus miúdos. No próximo ano, é provável que volte a jogar torneios internacionais de veteranos por Portugal, que era o que fazia antes de ser capitão. São torneios para maiores de 50 e vai dar-me muito prazer reencontrar colegas, agora mais gordos e carecas... Eu, felizmente, continuo magro e com muito cabelo."
«Nova geração tem potencial»
"O futuro da selecção principal está salvaguardado", diz José Vilela, mesmo considerando que "será difícil, nos anos mais próximos", formar uma equipa comparável à dos "Quatro Mosqueteiros". "Mas a nova geração também tem potencial, é preciso acreditar e dar-lhe apoio."