Juan Carlos Ferrero e os anos que trabalhou com Alcaraz: «Só quis fazer dele melhor pessoa e jogador»

Espanhol deixou de treinar 'Carlitos' em dezembro de 2025

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Juan Carlos Ferrero e o seu pupilo Carlos Alcaraz
Juan Carlos Ferrero e o seu pupilo Carlos Alcaraz • Foto: Lusa/EPA

O espanhol Juan Carlos Ferrero revelou esta 6.ª feira que pensava muitas vezes em como poderia tornar Carlos Alcaraz melhor pessoa e tenista, considerando que as solicitações extradesportivas eram o mais difícil de gerir quando era treinador do número um mundial.

"A minha pergunta, muitas vezes, era se estava a fazer tudo o possível para que ele [Alcaraz] melhorasse. Perguntava-me muitas vezes como ele podia ser melhor como pessoa e jogador. [...] É preciso fazer essa pergunta, porque quando te conformas, a evolução estanca", declarou.

'Eterno' treinador de 'Carlitos' - acompanhou o murciano desde miúdo até dezembro passado -, Juan Carlos Ferrero participou esta 6.ª feira no 'Simpósio nacional de treinadores de ténis", promovido pela Federação Portuguesa de Ténis, no Complexo do Jamor, em Oeiras, dedicando-se a contar os segredos para "Pensar, treinar e competir como um campeão".

"O mais importante em relação ao Carlos era que evoluísse como pessoa, que mantivesse os valores que trazia de casa", assumiu num diálogo em espanhol com Rui Machado, o capitão da Taça Davis.

Antigo número um mundial e vencedor de Roland Garros em 2003, Ferrero contou alguns dos 'segredos' da sua parceria bem-sucedida com o vencedor de sete 'Grand Slams', seis deles sob a sua orientação, comentando que "dava muita importância" a que o jogador estivesse "fresco, motivado e com as ideias claras" e apontando sem hesitar qual o aspeto mais difícil.

"Há tanto interesse e tantos compromissos com a imprensa, com os patrocinadores, com os fãs, que é difícil ter tempo de qualidade. Há que fazer bem os deveres para gerir isso", pontuou.

Ferrero revelou que "o serviço sempre foi a pancada" que Alcaraz mais trabalhou para melhorar -- "ano após ano fomos aperfeiçoando a técnica" -- e que, "com todo o respeito pelos outros tenistas", Jannik Sinner foi sempre o 'alvo' preferencial do trabalho específico que fez com o murciano de 22 anos.

Retirado desde 2012, 'O Mosquito', como era conhecido, defendeu reiteradamente a importância da equipa que rodeia o jogador, que precisa de entender a maneira deste ser, e indicou como decisivo para o sucesso dos futuros tenistas o "estar aberto a querer melhorar continuamente".

O valenciano, que hoje se fez acompanhar pelo seu treinador de sempre, Antonio Martínez Cascales, confessou que aceitou treinar Alcaraz por sentir "falta de viver esses momentos, de ir do zero ao topo".

"Gostei de viver como treinador o que vivi como jogador", completou, declarando ter chegado até onde pôde chegar, sem nunca se referir ao seu 'amargo divórcio' do líder do ranking ATP.

O espanhol de 46 anos detalhou também a experiência que tem na sua academia, onde aposta num trabalho mais direcionado e "familiar" com os jogadores de futuro.

"É muito importante que um treinador não faça as coisas apenas como quer. Tens de saber como é o jogador e como tirar partido da forma de ser dele", declarou, defendendo que a técnica é "importante, sobretudo quando são jovens" e que o ideal é ter "um jogador explosivo, flexível, rápido".

Instado a apontar qual é o erro mais repetido pelos aspirantes a tenistas que chegam à sua academia, Ferrero apontou algo a que chama "o jogo invisível".

"A maioria dos jogadores não usa a informação da sua pancada para saber como lhe vai chegar a bola seguinte. [...] Há muitos jogadores jovens que esperam para ver como vem a bola e não reagem a tempo. [...] Há que explicar ao jogador, é como um jogo de xadrez. Isto utilizei-o nos últimos anos com o Carlos", revelou.

Dizendo-se "como em casa" em Portugal, para onde viajou desde miúdo, o treinador espanhol falou também sobre os altos e baixos da sua carreira, elegendo o primeiro título na Taça Davis, a vitória em Roland Garros e a ascensão a número um mundial como os seus melhores momentos enquanto tenista.

"Tenham paciência com os miúdos, porque o trabalho de treinador compreende várias áreas: de treinador, psicólogo [...] e até um pouco de pai", disse para finalizar, dirigindo-se aos treinadores portugueses que lotaram as bancadas do Centro de Alto Rendimento de Ténis do Jamor.

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