A Federação Portuguesa de Voleibol (FPV) prepara-se para dar um passo pioneiro no desporto nacional ao avançar com a criação de um inovador Departamento de Saúde Mental. Este novo pilar visa oferecer apoio crucial às jovens e aos jovens atletas das seleções, abrangendo as suas carreiras académica e desportiva, bem como a vida pessoal.
O projeto encontrou um aliado de peso e um rosto familiar: Miguel Cunha, internacional sénior ainda no ativo, que irá desenvolver um trabalho fundamental com as camadas jovens, ancorado no seu projeto de Doutoramento e numa experiência pessoal que o levou a “bater a cabeça menos vezes na parede”.
Voleibol de elite e bem-estar: Uma parceria essencial
A iniciativa da FPV, embora ainda em fase embrionária, é considerada uma abordagem cada vez mais necessária no desporto de alta competição. O objetivo é claro: combater o estigma e desmistificar os preconceitos sobre a saúde mental dos jovens atletas.
A criação de um Departamento de Saúde Mental focado neste segmento etário visa proporcionar apoio psicológico contínuo, crucial para lidar com desafios como a pressão, a exposição mediática e a ansiedade, tanto durante a carreira como na difícil transição para a vida pós-desporto.
A ambição da FPV ganhou forma e consistência através de uma parceria com o projeto académico de Miguel Cunha, de 28 anos, irmão gémeo do internacional Bruno Cunha (VC Viana). O atleta, Zona 4 do Vitória SC e internacional pela Seleção Nacional de Seniores, é o mentor do projeto de doutoramento financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e apoiado pela Universidade da Maia: “Mental health and well-being in Portuguese elite youth volleyball: Parents and coaches mental health literacy and feasibility of Mindfulness based interventions” (Saúde mental e bem-estar no Voleibol jovem de elite português: Literacia em saúde mental de pais e treinadores e exequibilidade de intervenções baseadas em plena consciência).
Miguel Cunha: “A cabeça tinha batido menos vezes na parede...”
Licenciado em Bioquímica, com pós-graduação em Bioengenharia e um Mestrado focado na relação entre saúde mental e bem-estar no desporto, Miguel Cunha traz para este projeto uma perspetiva única de quem conhece o percurso do atleta por dentro.
“Pessoalmente, sempre foi uma coisa que me interessou bastante. Fez parte da minha carreira, do meu progresso. Não tive um progresso convencional, podemos dizer assim”, confessa Miguel Cunha, não hesitando em partilhar a sua experiência: “Lidei com alguns problemas como toda a gente está a lidar, mas se calhar não sabe identificá-los, de saúde mental, sempre fui um rapaz ansioso, que teve que lidar com algumas nuances. Então, tive que me capacitar destas ferramentas”.
A sua própria procura por ajuda, sendo acompanhado por um psicólogo desportivo há cerca de 5 anos, foi um catalisador para esta missão.
“Quando eu penso agora que faço esse tipo de acompanhamento e vejo os efeitos que isso tem em mim, [...] a capacidade que eu tenho agora de me gerir a mim próprio, de corresponder à pressão, às expectativas e assim, eu dei comigo a pensar assim: porque é que eu não tinha visto isso quando era miúdo? Se calhar o processo tinha sido um bocado mais fácil, a cabeça tinha batido menos vezes na parede…” .
Foco nos jovens e não só
O trabalho de Miguel Cunha com a FPV irá focar-se nas seleções mais jovens, uma escolha que o jogador considera “bastante pertinente”.
“É durante esta altura da adolescência, a partir dos 16 a 17 anos, começam a surgir os primeiros sintomas e os primeiros indicadores de desordens mentais. Começa a aparecer ansiedade, começam a aparecer alguns sinais de depressão”, alerta Cunha. O atleta aponta para uma realidade preocupante no desporto: “Não é incomum ver malta nova a ser medicada com antidepressivos e tudo mais”.
A chave do projeto não reside apenas no apoio aos atletas. O intuito é estendido a quem os rodeia. “Este trabalho que eu quero fazer não só vai ser com os atletas em si, porque o atleta acaba por ser o cerne da questão, mas também é o meu intuito trabalhar com treinadores, perceber como é que é a atuação dos pais aqui neste cenário”, explica.
Para o internacional, pais e treinadores são as figuras mais importantes na vida do jovem desportista, exercendo um efeito direto na sua saúde mental. “Por mais bem que queiram de nós, acabam por nos meter mais pressão em cima do que eles acham que estão a fazer”, sublinha.
O Doutoramento de quatro anos envolverá diversas ações, como programas ligados ao mindfulness, mas também uma análise profunda do estado atual da saúde mental dos jovens desportistas em Portugal e do conhecimento dos pais e treinadores sobre o tema.
Uma luta contra o estigma
Miguel Cunha não tem dúvidas: o principal obstáculo a combater é o estigma que impede a procura de ajuda.
“Eu ainda estou no ativo e dou-me com muitos atletas, desde mais velhos a mais novos, e eu consigo ver que o desportista ainda tem aqui um estigma que é difícil de combater. Que é o homem que é duro, o homem que não sente a pressão, que não sente nada, o homem que não fala sobre as emoções. Isso aí vai ser muito difícil de desconstruir”, afirma
O atleta/investigador acredita que a abertura tem de começar nos adultos.
“Acho que os pais e os treinadores constituem a porta de abertura para os jovens”, diz Cunha, acrescentando que “se o meu treinador não vir importância nesta parte na minha saúde mental e se os meus pais não virem importância na minha saúde mental eu também não vou ver”.
A missão da FPV e de Miguel Cunha é promover um ambiente onde a saúde mental seja discutida abertamente, eliminando o estigma. O foco “no rendimento e bem-estar através do apoio psicológico personalizado e da criação de programas preventivos é o caminho para garantir que os atletas se sintam apoiados” e consigam melhorar o seu desempenho desportivo, sabendo que “há de ser sempre ser uma luta, mas assim podem ganhá-la”.