Mulheres de armas na Liga Solverde

Foto: FPV
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O voleibol no feminino entre a escola, a maternidade e a glória

O voleibol feminino em Portugal atravessa um momento de afirmação sem precedentes, consolidando a Liga Solverde.pt como um palco de excelência onde o talento não escolhe idades. 

A modalidade exige uma entrega total que vai muito além do pavilhão, fundindo a alta competição com os desafios da vida quotidiana, da maternidade e das barreiras de género que ainda teimam em persistir na sociedade desportiva. Neste cenário de resiliência, emergem figuras que definem o ADN do jogo. Maria Carlos Marques, a libero do Sporting que dá lições de disciplina entre a escola e o treino, e Ana Couto, a distribuidora do Colégio Efanor que provou que a paixão pelo voleibol não conhece limites, chegando a competir grávida ao mais alto nível Histórias de quem joga pelo clube, pelo País e pela afirmação do feminino numa modalidade apaixonante. 

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Aos 41 anos, Maria Carlos Marques continua a ser uma das figuras de proa da Liga Solverde.pt. Atual líbero do Sporting Clube de Portugal, a atleta concilia a exigência do desporto de alta competição com o ensino no 1.º Ciclo numa escola pública, provando que a longevidade no voleibol é fruto de uma disciplina rigorosa e de uma paixão inabalável pela modalidade. Em entrevista, a jogadora leonina partilhou os segredos de sua forma física, a visão sobre o papel das mulheres no treino e a ambição de conquistar títulos pelo seu "clube do coração". 

Maria Carlos Marques

A rotina de Maria Carlos é um testemunho de resiliência. Entre as aulas das 9h00 às 15h30 e os treinos de tarde, a atleta garante que, fisicamente, não fica atrás das colegas mais jovens. "O amor ao que faço é tão grande que o faço com naturalidade", afirma, destacando o apoio do Sporting na gestão da sua carreira dual.

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Para a líbero, representar as leoas traz uma pressão acrescida que encara como um privilégio. Após ter conquistado a Taça de Portugal na época transata, Maria assume que vencer o campeonato nacional seria a "cereja no topo do bolo”. 

No balneário, o seu papel transcende a vertente técnica. Maria Carlos assume-se como uma mentora natural, educando pelo exemplo. "Quando a quarentona não dá nenhuma bola por perdida e cumpre o plano de treino, nenhuma miúda se sente à vontade para relaxar", explica. 

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Esta postura assertiva foi também a chave do seu sucesso quando, em 2022, assumiu o comando técnico de equipa masculina do CD Póvoa. Apesar da experiência vitoriosa, a jogadora é perentória ao afirmar que não ambiciona ser treinadora principal a tempo inteiro, preferindo funções de adjunta que permitam desenvolvimento técnico e tático sem abdicar da sua vocação no ensino. 

As abordar a persistência de preconceitos de género no desporto português, Maria Carlos recorda que, enquanto treinadora, era frequente os interlocutores dirigem-se ao seu adjunto masculino assumindo-o como o líder. Para a atleta, este é um problema enraizado na sociedade, que se reflete na desigualdade salarial e na falta de mulheres em cargos de decisão. "As direções dos clubes são maioritariamente constituídas por homens", aponta, acrescentando de forma autocritica que as mulheres tendem a ser "mais reflexivas sobre as competências", enquanto os homens "se atiram de cabeça com maior ambição”. 

Sobre o futuro, Maria Carlos Marques pretende ser recordada como uma atleta exemplar que contribuiu para o crescimento do voleibol feminino em Portugal. 

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Para a líbero, o importante é deixar um legado de disciplina, empenho e desportivismo, ajudando a consolidar uma modalidade que tem conquistado cada vez mais visibilidade e público nos pavilhões nacionais. 

O desafio de jogar a dois 

Ana Couto, a experiente distribuidora de 35 anos que atualmente brilha na Liga Solverde.pt ao serviço do PV 2024/Colégio Efanor, é um dos rostos mais reconhecíveis do voleibol nacional. Numa carreira marcada por passagens em clubes históricos como o Leixões – onde ajudou a quebrar um jejum de 20 anos de títulos –, o ou o FC Porto, a internacional portuguesa olha para o seu percurso com o orgulho de quem teve de trabalhar "quatro vezes mais" para se afirmar como passadora. Contudo, entre as muitas conquistas no currículo, dois momentos destacam-se pela superação física e emocional: a época em que competiu grávida e a histórica medalha na Silver League pela Seleção Nacional. 

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Um dos capítulos mais marcantes da vida de Ana Couto aconteceu durante a sua segunda época no Colégio Efanor. Enquanto a equipa lutava para chegar à final do campeonato, a atleta descobriu que estava grávida. Num testemunho sincero, a distribuidora recorda que só fez o teste de gravidez após um jogo importante, apesar de já pressentir a notícia. A decisão de continuar a jogar até às 17 semanas de gestação não foi tomada de ânimo leve e exigiu uma rede de apoio constante, desde a cumplicidade das colegas – que evitavam amorties para que ela não tivesse de mergulhar no chão – até à monitorização médica rigorosa. 

Atleta do Colégio Efanor na Liga Solverde concentra-se no jogo de voleibol

Ana descreve essa fase como um exercício de superação absoluta, lembrando-se da ansiedade da família e do esforço físico redobrado. "Se eu, sendo atleta, precisava de 24 horas para recuperar de um jogo, grávida precisava de 48", confessa. O ponto alto da melhor época do Colégio Efanor foi a chegada ao quinto jogo da final contra o FC Porto, em pleno Dragão Arena. 

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O pós-parto trouxe novos desafios, com a atleta a regressar ao pavilhão apenas três semanas após o nascimento do filho, Simão, não pela rotina, mas pela necessidade psicológica de estar entre os seus e de recuperar a identidade enquanto mulher e atleta. 

Para além do sucesso nos clubes, o percurso de Ana Couto na Seleção Nacional é um dos pilares da sua carreira. Desde os tempos da formação, onde aprendeu que “se não estivesse a sorrir, não valia a pena jogar", até à consagração no escalão sénior, a camisola das quinas sempre teve um peso especial. Para a passadora, o momento de maior orgulho internacional foi a conquista da medalha de prata na Silver League. 

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Ana define este feito como o "auge" da sua carreira na seleção, sublinhando que, se ganhar títulos em Portugal é gratificante, subir a um pódio internacional representa o reconhecimento de todo o trabalho e sacrifício feito ao longo de décadas. Representar o País continua a ser uma honra que a faz arrepiar ao ouvir o hino, tal como na primeira vez. 

Hoje, aos comandos do jogo no Colégio Efanor e conciliando a maternidade com a alta competição, Ana Couto define-se como uma “jogadora solidária", acreditando que o sucesso individual só existe através do sucesso da colega ao lado. Com uma carreira rica em histórias de resiliência, Ana Couto continua a ser uma referência de como é possível equilibrar a ambição desportiva com as exigências da vida pessoal. 

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