Hugo Gaspar é médico e combate a Covid-19: «As coisas vão-se complicando de dia para dia»

Capitão do Benfica, de 37 anos, pinta o quadro da realidade que tem vivido

• Foto: Miguel Barreira

O capitão da equipa de voleibol do Benfica, de 37 anos, é médico e pinta o quadro da realidade que tem vivido, pois tem estado a ajudar no combate à pandemia de coronavírus na unidade de saúde familiar onde trabalha

Record - Tem estado a ajudar no combate a esta pandemia em algum hospital?
Hugo Gaspat – Sim, mas não estou num hospital. Estou no meu local de trabalho que é a Unidade de Saúde Familiar da Travessa da Saúde, em Sacavém.

R- Consegue pintar um quadro da realidade que tem vivido diariamente?
HG – Neste momento, ainda estamos em pleno início em termos de organização e de atuação, porque as normas têm vindo a mudar de dia para dia. Temos indicações para fazer planos de contingência que também vão mudando com o agravar da situação. Há indicações para dar prioridade a situações mais agudas e urgentes, remetendo os restantes utentes para mais tarde. Temos de ter especial atenção a grávidas, crianças de menos de 18 meses e pessoas com doenças agudas. Mas, sempre com as medidas de proteção garantidas também para nós, profissionais de saúde.

R - Estão garantidos todos os materiais e/ou ferramentas essenciais para a prevenção e tratamento?
HG – Ainda há bastante carência de material. Não estamos a funcionar a 100%, como gostaríamos, mas esperemos. O Governo referiu que até ao final da semana teríamos dois milhões de máscaras que são essenciais. Por isso, ainda estamos a aguardar que esse material seja distribuído, porque realmente começa a sentir-se alguma carência. Mas, nós profissionais temos tentado criar as condições e vamos desenrascando. Muitos compraram óculos de acrílico para se protegerem. Tudo por iniciativa própria dos profissionais de saúde.

R - Qual a perspetiva para as próximas semanas?
HG – As coisas vão-se complicando de dia para dia. No entanto, com o decreto de estado de emergência vai haver menos pessoas na rua. Mas, veremos, porque é sempre uma incógnita. Como costumamos comentar entre nós ao final do dia: ‘todos os dias são diferentes e temos de nos preparar para tudo o que vem’. Volto a repetir que é uma incógnita e que não está a ser fácil.

R - Como está a decorrer o processo de triagem?
HG – Primeiro, há uma afluência muito menor aos centros hospitalares. Depois todas as consultas de seguimento, como a doentes diabéticos ou hipertensos, de doença programada digamos assim, têm indicações de que as consultas estão canceladas. Temos de apostar em contactos não presenciais, como tudo aquilo que podemos tratar por telefone ou por email. E é assim que estamos a desenrascar, porque quanto menos contacto se fizer, entre nós e a população ou entre as próprias pessoas, melhor. Por exemplo, as salas de espera não podem ter pessoas. São essas as medidas que estamos a aplicar mais. E temos dado prioridade a grupos de risco, como já referi. Mas, por exemplo, é urgente pensos para as alas de enfermagem que estão a começar a faltar. O resto é tudo adiado para mais tarde.

R - Qual o sentimento predominante das pessoas que se dirigem à sua unidade?
HG – Estão com medo. Mas em termos de afluência está tudo controlado, porque há muitas pessoas a respeitar a quarentena e não saem de casa. Têm seguido muito bem as indicações. Mas, isto muda todos os dias!

"Temos um plano de treinos para ser feito em casa"

R - Enquanto atleta de alta competição também é um exemplo a seguir. As atitudes dos desportistas têm sido fundamentais para alertar a população?
HG – Sim! Por exemplo, nós neste momento temos um plano de treinos para ser feito em casa. Os nossos preparadores físicos e equipa técnica mandam os planos por email, WhatsApp ou por mensagem e cada atleta faz o respetivo plano em casa. Cumprindo, assim, as indicações de ficar o máximo de tempo em casa ou em isolamento.

R - Há muitos médicos predispostos a ajudar, como por exemplo, médicos de especialidade que estejam agora nas urgências?
HG – Sim, alguns casos. Mas, ainda não surgiu a requisição civil para os médicos, como é o meu caso, de medicina geral e familiar para se dirigirem aos hospitais. Portanto é algo que ainda pode vir a acontecer.

"Todos juntos vamos vencer isto!"

R - Tem algum conselho ou mensagem que pretenda deixar aos portugueses?
HG – Todos juntos vamos vencer isto! Respeitem as indicações das autoridades nacionais de saúde, e políticas também. Porque só assim é que vamos conseguir ultrapassar esta situação sem grandes desaires.

R - Nota alguma diferença em termos de preocupação ou de afluência à unidade de saúde entre os distintos grupos sociais?
HG – Não tenho notado. Por acaso trabalho numa unidade de saúde familiar onde se encontram pessoas dos vários espetros sociais, assim como de diferentes etnias ou raças e não noto diferenças. Têm todos convivido muito bem e respeitado os cuidados de saúde próprios e para com os outros. Uma convivência ótima, até ao momento.

Por Luís Magalhães
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