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Será que é alérgico ao exercício físico?

• Foto: Lusa

Sim, já sei que depois de terem lido o título do artigo desta semana pensam que estou a brincar convosco ou a colocar-vos uma pergunta com rasteira. A verdade é que esta situação existe mesmo! Claro que a alergia não é direta à prática de exercício físico e que está sempre ligada a uma questão alimentar, mas a verdade é que o exercício é o seu gatilho!

Vamos por partes. Este sábado estive presente no 1º Encontro Luso-Brasileiro de Alimentação Funcional que, entre muitos outros temas interessantes, referiu este tema com alguma profundidade e claro que não poderia deixar de partilhar convosco algumas das coisas que aprendi. A verdade é que não é uma situação recente, sendo que o primeiro caso relatado data de 1979.

Mas vamos primeiro perceber como é que isto acontece. A anafilaxia induzida por exercício dependente de alimentos (AIEDA) é um tipo particular de anafilaxia de exercício (AE), caracterizada pelo aparecimento de uma reação alérgica sistémica (queixas cutâneas e respiratórias e/ou cardiovasculares) desencadeada pelo exercício (durante ou após), apenas quando este é efetuado nas primeiras 2 horas após a ingestão alimentar.

Existem vários alimentos associados a casos AEIDA, sendo que o trigo (o alimento mais frequentemente associado), a maçã, os frutos secos, os frutos do mar e a cebola se destacam.

Dieta livre de glúten a quem tenha sensibilidade ao trigo

Contudo, todos os estudos efetuados têm tido dificuldade em associar esta reação a um alergénio específico. Porém, quando se consegue detetar essa sensibilização alimentar, é suficiente eliminar o alimento da dieta antes de realizar alguma atividade física. Estudos recentes têm demonstrado que a gliadina do trigo e proteínas de outros cereais são importantes alérgeneos, por isso é recomendada uma dieta livre de glúten aos pacientes que tenham sensibilidade ao trigo.

A anafilaxia induzida pelo exercício pode ser desencadeada por qualquer tipo de atividade física independentemente da sua intensidade, associando-se com maior frequência a exercícios aeróbicos prolongados, como por exemplo, o atletismo, que foi uma das atividades mais frequentemente reportadas, prática de ténis ou futebol. Neste contexto, assume especial importância nos atletas de alta competição.

Como se manifesta

Mas o mais importante é perceber como se manifesta.  Normalmente este tipo de anafilaxia caracteriza-se pelo desenvolvimento de uma reação sistémica grave, desencadeada pelo exercício físico, que ocorre habitualmente durante os primeiros 30 minutos após o início da atividade física. Tipicamente começa com a manifestação de sintomas mais leves como a sensação de calor, prurido cutâneo e eritema, mas que evolui de forma muito rápida para anafilaxia se o exercício for continuado, com queixas cutâneas, respiratórias, gastrointestinais e/ou cardiovasculares, podendo ocorrer edema laríngeo em metade e colapso cardiovascular em cerca de um terço dos doentes. Apesar de acontecer em situações fatais muito raras, é importante referir que esta situação clínica pode ser ameaçadora da vida.

Durante os episódios de anafilaxia acontece um aumento significativo dos níveis de histamina plasmática e de outros mediadores do processo alérgico. O mecanismo pelo qual se desencadeia este estímulo para a libertação de histamina ainda é desconhecido, mas sabe-se que uma das formas de prevenção, tendo em conta que, normalmente, em crises não se consegue perceber que alimento isolado potencia esta condição, deve preferir-se os alimentos pobres em histamina.

A verdade é que, apesar de determinados alimentos estarem diretamente relacionados com esta condição, não são os únicos envolvidos no processo.

Vários estudos referem que as lesões podem ser desencadeados por múltiplos fatores como, estímulos térmicos, exercícios físicos, alterações emocionais, analgésicos, para além da sua possível relação com a ingestão de certos alimentos aos quais o indivíduo é alérgico em grau subclínico, mas que durante a atividade física faz com que se manifestem todos os sinais de alergia. Os referidos estímulos provocam uma descarga automática de acetilcolina e podem causar anafilaxia.

O tratamento passa pela administração de anti-histamínicos ou corticosteroides, já a prevenção das crises está dependente dos fatores que a desencadeiam, o que torna o diagnóstico precoce é essencial. Caso estejam envolvidos alergénios alimentares específicos, devem ser evitados até 4-6 horas antes do exercício e pelo menos 1 hora depois. Em casos de mais difícil controlo pode mesmo estar indicada a eliminação completa desse alimento da dieta, principalmente naqueles que praticam exercício físico de forma diária.

Assim, nas dicas desta semana, vou falar de alguns alimentos que devem ser evitados e outros preferenciais, assim como outras estratégias para prevenir esta condição.

Até para a semana.

Fonte: Revista Medicina Desportiva, 2013

Para mais informações ou esclarecimentos, contacte: inesfilipamorais@gmail.com

Por Inês Morais
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