Mal termina uma grande competição, começa o julgamento. Uma seleção jogou “com classe”, outra foi “desonesta”. Multiplicam-se veredictos morais nas bancadas e nas manchetes, como se a legitimidade de uma vitória pudesse decidir-se no calor da indignação. Não pode. A legitimidade desportiva conquista-se em campo e só pode ser posta em causa por prova e por processo.
Não é um detalhe. É o princípio que sustenta a credibilidade do desporto. Uma seleção é campeã porque venceu segundo regras iguais para todos. Se infringiu essas regras — por dopagem, manipulação de resultados ou corrupção — o desporto dispõe de mecanismos para o apurar e sancionar: regulamentos, arbitragem, autoridades antidopagem e tribunais desportivos. A sanção deve ser firme, mas apenas quando assente em factos demonstrados e em decisões fundamentadas. Nunca em suspeitas ou na pressão da opinião pública.
Confundir suspeita com prova é o erro que a parábola do trigo e do joio descreve há dois mil anos. Quando os servos quiseram arrancar de imediato as ervas daninhas, foi-lhes dito que esperassem pela ceifa, para não destruírem também o trigo. No desporto acontece o mesmo. Quem julga antes do tempo arrisca-se a condenar o mérito legítimo em nome de uma certeza que ainda não existe.
Esta prudência não diminui a competição; protege-a. A competição, regulada e aceite por todos, transformou a rivalidade entre povos numa forma pacífica e civilizada de confronto. É uma conquista da civilização, não um instinto a reprimir. Competindo sob regras comuns, aprendem-se disciplina, esforço, superação, respeito pelo adversário e capacidade para aceitar a derrota. Defender a integridade do desporto é, por isso, defender a própria competição.
Quem garante, então, que ao longo do tempo o mérito é reconhecido e a fraude punida, sem que uma coisa se confunda com a outra? Não são os comentadores nem a indignação do momento. São as instituições. Jean Monnet sintetizou-o de forma exemplar: «Nada se faz sem os homens, mas nada perdura sem as instituições.» Um atleta conquista uma medalha; é a instituição que garante que essa medalha terá o mesmo valor daqui a vinte anos.
Mas as instituições não existem por si. Vivem da qualidade de quem as dirige. Não falo de quem aplica mecanicamente regras estabelecidas. Falo de quem tem a responsabilidade de decidir, fazer cumprir e assumir as consequências das suas decisões. A integridade de um líder não se mede pelos discursos nem pelos comunicados. Mede-se quando chega o momento de decidir, de escolher um princípio em vez da conveniência e de sustentar essa escolha quando ela tem custos.
O maior inimigo dessa integridade raramente é a corrupção ostensiva. É o unanimismo: a tentação de adiar decisões difíceis para não desagradar, de procurar consensos vazios em vez de exercer liderança. Quem age assim não decide; contemporiza. Evita o conflito quando deveria afirmar um princípio e, ao proteger-se do incómodo, acaba por proteger quem devia responsabilizar. Não é prudência. É cobardia disfarçada de equilíbrio.
Por isso, a falha de um dirigente é mais grave do que o erro de um atleta. O atleta viola regras; o dirigente que se recusa a decidir enfraquece a autoridade das próprias regras. A maior ameaça à integridade do desporto raramente é o escândalo que chega aos jornais. Para esse existem investigação, processo e sanção. O verdadeiro risco é a erosão silenciosa provocada por decisões adiadas, compromissos oportunistas e lideranças sem coragem.
Separar o trigo do joio nunca foi tarefa da bancada. É missão de instituições suficientemente fortes para respeitar o tempo da prova e de líderes suficientemente íntegros para, chegada a ceifa, terem a coragem de fazer a colheita — mesmo quando isso significa decidir contra os seus próprios pares.
Linha da Frente é um espaço semanal da responsabilidade da Sport Integrity Global Alliance (SIGA)
Por João Paulo Almeida