A alma gigante do físico menor

1 A figura gera desconfiança automática: tem um rosto que se perde na multidão e umas pernas de alicate que alimentam a ideia segundo a qual é atleta de menos para exigências tão elevadas; a compleição física parece débil para qualquer trabalho pesado e, numa primeira análise, todos se convencem de que lhe faltam centímetros, quilos e músculo para desafiar os gladiadores que o esperam. Em miúdo, não custa imaginá-lo tímido e pouco falador, a bater à porta de quem o recusava com a lengalenga de que era bom mas pequenote, de que tinha qualidades mas não correspondia aos requisitos mínimos de peso e altura. Mas já nessa altura a sua grandeza futebolística estava no lugar certo: o cérebro prodigioso.

2 Liedson comove por generosidade e impressiona pela presença constante, dividido entre a resposta aos números e o cumprimento dos requisitos emocionais do jogo. É uma grande figura e ao mesmo tempo um trabalhador igual a outros; o homem dos golos salvadores e o cidadão comum que contribui para o bem-estar da comunidade. Porque recusa reduzir-se a ponta-de-lança do último toque, compromete-se com a jogada, com a sua elaboração e desenvolvimento; porque tem coragem para assumir riscos, aposta a alma em cada lance e nunca se dá por vencido; porque acredita em si próprio até à insolência, pede a bola nas situações mais delicadas e não se rende perante derrotas parciais. Sendo jogador frenético, tem o foco da acção totalmente concentrado na baliza adversária.

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3 Por saber que a ansiedade não é boa conselheira para um goleador e que a velocidade sem precisão é apenas uma forma de perder a bola mais cedo, Liedson distingue o fundamental do acessório. Tudo o que faz assenta em intenções claras, mesmo quando se entrega a exageros que aparentemente o diminuem. Ele corre, pressiona, cai, levanta-se e leva a bola; perde, volta atrás, recupera e reinicia a caminhada. Age como um surfista à procura da onda certa que o leve ao destino desejado. Quando a encontra, confirma a rapidez de raciocínio que o torna imparável, dá uma nova dimensão à agilidade felina e faz explodir o talento exuberante que se adivinhava. É então que leva o atrevimento às últimas consequências, pelo modo como conduz a bola, finta, tabela, vai buscar à frente e remata com frieza surpreendente.

4 Ser ponta-de-lança é um estado de espírito que reclama inteligência, engano e a falta de escrúpulos que leva os defesas à loucura e os árbitros ao erro. Liedson é um animal futebolístico que tem olfacto para a glória e, na iminência do golo, aumenta o reportório pessoal; é um homicida que não mata com punhos de renda, não cumpre todos os códigos de ética, muito menos revela preocupação com as vítimas. Joaquim Meirim, um dos mestres menos reconhecidos do futebol português, costumava dizer que só queria pontas-de-lança que fossem bons malandros e prolongassem, como homens feitos, o instinto de sobrevivência revelado na infância; que tivessem um trajecto social feito de dificuldades, com espírito moldado pela miséria, capaz de transformar cada golo em manifestação de vingança. Aposto que ele ia gostar de Liedson.

Flanco direito:

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A sorte a quem merece

Jesualdo Ferreira teve estrelinha de campeão na Amoreira, prova de que a sorte também concede favores a quem merece. Mas a vitória sobre o Estoril tem explicação: o artista (Wender) pintou os quadros habituais; o goleador (João Tomás) cumpriu o seu dever e o guarda-redes (Paulo Santos) confirmou os créditos que o colocam entre os melhores, mais regulares e decisivos da SuperLiga 2004/05 – quem havia de dizer?

Paradoxos de um jogador esquecido

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É muito alto mas tem boa articulação motora; é pesado mas rápido nas deslocações curtas; tem cabelos brancos mas não é velho; é limpo a desarmar, ganha espaço com facilidade e lança à distância porque possui visão e uma técnica de passe interessante – o pé esquerdo como ferramenta segura. Idalécio alimenta os paradoxos de jogador pouco reconhecido. Frente ao Benfica esteve perfeito. Fica o registo.

A voz subserviente de uma estupidez

A opção de Wanderley Luxemburgo no grande clássico espanhol, ao deixar Luís Figo no banco de suplentes, foi a voz subserviente de uma decisão superior que já está tomada: o génio português vai sair do Real Madrid no fim da época, por mais que os dirigentes ainda alimentem a dúvida com silêncios e declarações absolutamente estúpidas. Está assim tomada a primeira decisão de fundo quanto ao sucessor do projecto “galáctico”. Com este sentido de justiça, permitam-me a opinião, não vão longe.

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Os sumarissímos e os árbitros:

O conceito do sumaríssimo tem como premissa a impossibilidade física de o árbitro ver e analisar todas as ocorrências do mesmo lance. É um ajuste de contas da lei, tardio mas justo, recorrendo à tecnologia inimiga. No Bessa, de frente para o juiz, Pedro Emanuel pontapeou violenta e gratuitamente João Pinto. Uma agressão clara, com enquadramento distinto na relação entre árbitro e televisão: desta vez, o que as câmaras mostraram o juiz também viu. Em vez de expulsar Pedro Emanuel, Paulo Costa mostrou-lhe o amarelo. Haverá sumaríssimos para árbitros?

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