A aposta de Jesualdo

Custou, mas foi. Jesualdo Ferreira deixou o comando técnico do Boavista. Por outras palavras, tal significa que será o sucessor de Co Adriaanse ao leme do FC Porto. O “casamento” acaba por não surpreender, pois desde a saída do holandês que se percebera quem era o escolhido de Pinto da Costa, bem como o desejo do Professor de voltar a jogar para ser primeiro e não apenas um dos primeiros.

Escusadas, em todo este processo, foram as cenas que os principais elementos desta novela protagonizaram. Ainda recentemente, por exemplo, João Loureiro reafirmava que Jesualdo só poderia deixar o Bessa no final da temporada 2006/07, enquanto o treinador, de sorriso nos lábios, entrava em campo para mais um treino, lado a lado com o presidente. Os adeptos, poucos mas ferrenhos, entenderam o gesto como a confirmação da continuidade de Jesualdo de xadrez vestido e não regatearam aplausos. Enganaram-se. Ou foram enganados, não sei… O que tenho a certeza é que, mais uma vez, a rapaziada da imprensa não mentiu, embora tenha sido acusada de estar a alimentar uma “enorme especulação”. Por causa desta maneira de ser tipicamente portuguesa, alguns camaradas meus foram agredidos no Bessa. Nesta altura, muito provavelmente, os espertos que lhes bateram talvez estejam arrependidos do gesto. Ou então desejosos de “malhar” noutra gente. Mas, adiante…

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Depois de Fernando Santos, Jesualdo será mais um confesso benfiquista a dirigir o clube portista, situação que, há uns anos, seria certamente impossível ou, pelo menos, bastante improvável. Agora, nos tempos da globalização, praticamente tudo é possível: presidentes de um clube que são sócios ou ex-líderes de outros e/ou dirigentes galardoados por determinado emblema a liderar o futebol dos rivais. Enfim, os tempos são mesmo outros. Os intervenientes do desporto-rei (ou de qualquer outra modalidade) procuram apenas melhorar as suas condições financeiras. Parece mal? A mim, não! Bem pelo contrário. A conversa do “amor à camisola” é que já não está actual.

Confesso que durante muito tempo não gostei do trabalho de Jesualdo Ferreira. Embora inúmeras pessoas me dissessem que estava errado, a verdade é que o considerava demasiado teórico. Assumo, contudo, que o Professor esteve simplesmente notável durante as duas épocas passadas em Braga. Aliás, ainda hoje não percebo porque não continuou no Minho. Desconheço qual das partes terá “roído a corda”, mas isso, agora, também não é relevante.

Ao aceitar ir liderar o FC Porto, Jesualdo procura agarrar aquela que pode ser a última oportunidade para entrar na história como um treinador ganhador e não apenas mais um capaz de fazer “coisas interessantes”. É uma ambição legítima e justa para quem, ultimamente, mostrou muita capacidade para a função.

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A tarefa de Jesualdo não será, no entanto, fácil, mesmo sabendo-se que vai tomar conta do actual detentor da Liga e da Taça de Portugal. Embora escudado numa estrutura sólida, o treinador terá de ter consciência de não ser um nome consensual entre os adeptos portistas. E, hoje em dia, não basta ganhar para se conquistar os simpatizantes. Se fosse assim, a partida de Adriaanse teria provocado muitas lágrimas na Invicta e isso, seguramente, não aconteceu…

Caso as coisas não corram bem, o técnico poderá sentir dificuldades para, no futuro, encontrar projectos ambiciosos. Muitos dirigentes podem lembrar-se que este foi o treinador que, perante um convite mais aliciante, forçou a saída de uma equipa a poucos dias da temporada arrancar. E isso, naturalmente, não é um bom cartão de visita.

E como fica o Boavista? João Loureiro, em meu entender, sai fragilizado. Deu a ideia de ser duro e determinado a negociar, mas acabou por ceder. E por muito boa que seja a compensação vinda do Dragão, é o clube do Bessa que, em cima da hora, ficou “de calças na mão".

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