Longe vão os tempos em que a maioria dos ditados populares pareciam verdades absolutas. Hoje, algumas dessas célebres frases, perderam senão todo, muito do seu sentido. Por exemplo, enquanto criança, não duvidava do famoso “o desporto dá saúde”. Hoje, embora mantenha a ideia de que a prática regular de exercício é fulcral para “limpar” corpo e alma, sei que não se pode aplicar, na íntegra, a mensagem do adágio.
O treino intensivo, as repetições constantes de determinados gestos, o “stress” próprio da competição, as mazelas que mais tarde ou mais cedo aparecem ou a necessidade de complementar a parte técnica com o trabalho físico – entre muitas outras razões – fazem com que a vida de um desportista profissional seja tudo menos... salutar.
Mas, convenhamos, se o alto rendimento acaba, invariavelmente, por deixar marcas nos atletas, mais estranho é constatar que, oficialmente, cada vez há mais gente com doenças tradicionalmente incapacitantes a viver da prática desportiva. Saber que Portugal leva uma representação a Pequim com cerca de 20 por cento de asmáticos – conforme foi noticiado oportunamente – não deixa de ser curioso. E digno de realce, pois se mesmo com problemas respiratórios graves conseguem resultados de excelência, imagine-se o que seria possível obter se não registassem nenhuma anomalia.
Vem tudo isto a propósito da ausência de Sérgio Paulinho em Pequim. Em cima do “tiro de partida”, o ciclista da Astana comunicou a indisponibilidade para participar porque... é asmático e não conseguiria competir na capital chinesa – famosa pelo sua elevadíssima taxa de poluição – sem estar medicado. Algo que não pode fazer em virtude da regulamentação “anti-doping” adoptada pelo Comité Olímpico Internacional ser, por mais estranho que isso possa parecer, diferente da utilizada pela União Ciclista Internacional.
Entendo que ir à China para não conseguir respirar ou correr o risco de ser apanhado com uma análise positiva não eram grandes opções para o medalha de prata de Atenas mas, sinceramente, esta estória – independentemente do ângulo de abordagem - parece mal contada.
Atleta e equipa dizem que a sua condição de asmático é conhecida há quase um ano, adiantando que um teste feito nos Estados Unidos, em Janeiro, dissipou todas as dúvidas. Aliás, um dos médicos do conjunto, citado por Record, diz mesmo que Paulinho é um “asmático severo”. Porém, sabe-se também que depois, em Junho, nos exames feitos pelo Comité Olímpico de Portugal, os resultados foram negativos. Estranho? Sim, tal como não é compreensível ter-se esperado quase pelo dia da viagem para anunciar a ausência. O assunto não podia e devia ter sido debatido com alguma antecedência, de modo a proporcionar a inclusão de outro atleta na equipa nacional?
A avaliar pelas declarações de Vicente Moura, o Comité Olímpico de Portugal estava “a leste” de toda a situação, o que só contribui para a tornar menos clara.
PS – Apesar da sua aparente frágil condição física, Paulinho continua a treinar e, segundo consta, a preparar a participação na Volta a Espanha...
PS 1 – Porque será que, nos últimos dias, se tem assistido a um anormal anúncio de desistências de participação nos Jogos Olímpicos? Duvido que os atletas em causa sejam todos asmáticos...