A batota de Simão

ILUMINADO– Tem a suportá-lo uma carreira suficientemente grande para sorrir com desprezo a todas as dúvidas que levantem sobre o seu talento; podendo mesmo encará-las como provocações menores e passar à frente. Simão Sabrosa percorreu o caminho que o trouxe ao Benfica com uma luz a acompanhá-lo, aquela que ilumina normalmente os predestinados e lhe permitiu, por exemplo, marcar na Maia, pelo Sporting, na estreia na I Divisão, e a Israel, no Bonfim, no primeiro jogo que efectuou ao serviço da selecção nacional. Faz hoje 22 anos e é um prodígio futebolístico desde que nasceu.

DOCE E PICANTE – Simão foi a cereja em cima de um bolo já definido na forma, nas proporções e no sabor. Os benfiquistas esperavam-no ansiosamente, sendo imperceptível na altura se a expectativa tinha a ver com o picante do seu passado português construído de leão ao peito – que estimulava a sensação de roubo ao vizinho do lado – ou com o reconhecimento total da sua capacidade como jogador. Parecendo certo que a primeira hipótese é a que mais se aproxima da realidade, importa reconhecer hoje a coragem com que aceitou desafio talvez mais ousado ainda que o de trocar o Sporting pelo Barcelona quando tinha apenas 19 anos.

PUB

RECOMPENSA – Passou despercebido no meio das emoções provocadas pela constelação de estrelas que prenunciava a célebre equipa-maravilha. Fugir aos holofotes aliviou-lhe a pressão, deu-lhe tempo para recuperar índices físicos aceitáveis e adaptar-se à nova casa, processo que Toni geriu com mestria, adiantando confiança sem saber quando iria ter a recompensa futebolística, embora soubesse de antemão que um jogador destes nunca deixa ficar mal o treinador e que mais tarde ou mais cedo salda as suas contas. Foi essa paciência para gerir o crescimento que conduziu ao inevitável reencontro: o de Simão Sabrosa consigo próprio.

TRANQUILO– O jogo com a Estónia, pela selecção, tinha sido um indicador seguro, tranquilizador até. No momento de reencontrar os comparsas mais velhos na caminhada que o deverá levar à fase final do Campeonato do Mundo do próximo ano, Simão confirmou o que, afinal, já todos devíamos saber: não é apenas um jogador rápido, com facilidade para jogar nos dois flancos e capaz de cruzar com precisão milimétrica. É o maior talento do futebol português da era seguinte à geração de ouro e começa agora a repor as coisas no devido lugar.

BATOTA – Em Faro, quando recebeu a bola, solicitou a presença de Ednilson (já viram como o "senhor professor" está sempre onde é preciso?) e foi buscar à frente, Simão fez batota: nessa altura já sabia que ia marcar golo. Só assim se explica (não explicando, como está bom de ver) a razão pela qual, naquele curto espaço de terreno e com a estrada tão congestionada, teve o instinto de acelerar quando o mais aconselhável era travar; a arte de aniquilar dois adversários quando o mais fácil era retribuir o passe; a inspiração de executar tiro fulminante com o pé esquerdo, para o lado do guarda-redes, ou seja, fazendo tudo ao contrário do que vem nos livros. Assim se fazem os grandes golos e se definem os grandes jogadores.

PUB

Deixe o seu comentário
PUB
PUB