A esperança tem um nome

1. O coro das bancadas, cada vez mais afinado nos assobios e numeroso nos insultos, multiplica o nervosismo, aumenta a crispação e anuncia o clima de pré-rotura interna. Porque neste futebol de leis urgentes poucas ideias resistem a duas derrotas, o Sporting 2004/05 é uma equipa sem espontaneidade, assente em convicções débeis e assustada perante a iminência do fracasso. Quando a desconfiança e a pressão se instalam a este nível de exigência, o treinador é dos primeiros a ceder: age como se estivesse diante peças de xadrez que movimenta livre e indiscriminadamente no tabuleiro, reduzindo os jogadores a intermediários com limitado poder de iniciativa. Vítima das circunstâncias, o Sporting de José Peseiro tem muita ordem e pouca imaginação.

2. Orientados pela zona pressionante com que pretendem conquistar terreno, os médios leoninos têm sido subservientes perante as ideias do treinador – aceitam ser braços de um cérebro alheio. Sendo apenas o corpo de quem pensa por eles, impõem-se pela via mecânica dos movimentos articulados para não perderem posição; pelo estímulo ao equilíbrio colectivo e à forma automática de encurtar espaços e roubar iniciativa ao adversário – é difícil bater o Sporting em lances de jogo corrido. Como as figuras maiores (Pedro Barbosa e Hugo Viana) foram devoradas pela intranquilidade e têm sido intermitentes em presença e rendimento, falta quem cuide da bola e defina envolvimentos ofensivos mais participados e menos previsíveis – por isso a equipa marca tão poucos golos.

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3. Nessa perspectiva, a integração de Fábio Rochemback é um acontecimento. O brasileiro é o homem ideal para estabelecer a ponte entre a organização defensiva e o talento atacante; entre a repressão que tem subjacente a segurança e o espírito de aventura por que anseiam os espíritos mais livres e criativos. Por juventude, físico e temperamento é disponível, solidário e eficaz na procura da bola; por qualidade técnica e visão tem armas poderosas para se mover na geografia dos organizadores; pelo temível pontapé que possui é um perigo na aproximação à baliza. Com ele em campo, todos se sentirão melhor. Óptimas notícias para quem vai jogar o tudo ou nada nesta época.

4. Há três anos, por esta altura do campeonato, igualmente em situação extrema, Jardel chegou com o comboio em andamento e transformou o desespero na festa do título nacional. Com o eterno perfil de general implacável, Fábio Rochemback prepara-se para regressar ao campo de batalha, reocupando o posto de comando num exército deprimido e a desagregar-se. O momento é quase solene pela motivação que representa para os companheiros; pelo empolgamento que gera nos adeptos e pela intimidação que provoca nos adversários. Por mais ou menos quilos em excesso, por muitos minutos de que precise para readquirir ritmo e ser igual a si próprio, personifica a última esperança leonina para salvar uma época em risco. Pode não trazer glória instantânea mas é, ele próprio, a promessa de um futuro feliz.

Uma forma de irresponsabilidade

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Se empatar com um grupo de trolhas, bancários e pintores de automóveis é apenas um simples resultado negativo para a Selecção vice-campeã da Europa, nada a dizer do discurso leve e pragmático do seleccionador nacional.

Se os jogadores olham à volta e em vez de sentirem a vergonha que espalharam pelo País se refugiam no lugar comum do "futebol é isto mesmo", permitam a conclusão: não perceberam que lhes tocou entrar na História pelos motivos mais degradantes. Ou seja, foram indiferentes às palavras responsáveis do presidente da FPF.

FLANCO DIREITO

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O destino do pequeno genial

Saiu do Benfica e no regresso de Bordéus pôs a família encarnada em lágrimas; saiu outra vez e, ao voltar com a camisola do Belenenses, as bancadas levantaram-se em sinal de eterno reconhecimento. Fernando Chalana já não precisava do terceiro momento, agora como treinador do Oriental, para perceber o essencial: é a mais sólida paixão benfiquista dos últimos 30 anos.

A motivação suplementar de Quaresma

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O cenário do estádio vazio não estimulava; os companheiros não ajudavam; os adversários não desfaziam a muralha. Ricardo Quaresma lutava, pouco convencido do êxito, contra a desinspiração individual e colectiva. Prova de que os génios respondem melhor à picardia do que à rotina, foi preciso a plateia recriminá-lo para tirar um coelho da cartola e decidir o jogo. E ninguém falou mais no assunto...

A retribuição de Hugo Viana

Hugo Viana assinou no Bonfim a melhor exibição dos últimos meses, período no qual lhe sobraram problemas para poucos (ou nenhuns) momentos de felicidade - Newcastle, Europeu de Esperanças, Jogos Olímpicos e Sporting. Frente aos russos jogou à altura de um dos melhores médios-centro da Europa da sua geração. Nada que surpreenda. É o que sucede com os grandes jogadores: quando os treinadores lhes dão confiança, eles retribuem com futebol.

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